Conto | Foi você

Antes de apresentar a segunda parte, essa criação textual, agora intitulada ‘Foi você’, ia ter os seguintes títulos:

Castigo do crime | Sem pecado, sem culpa | Ficção do real | Fake news 

Perfume amadeirado | Desejo coletivo | Metáfora do inexistente | Foi você, fui eu

O modelo de escrita, repetido e com sentenças curtas, é uma opção pessoal para dar dinamismo aos personagens intelectualmente limitados e que nos fazem, por vezes, pensarem por eles. 

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FINAL
Numa clara e ensolarada manhã de outono, depois de alguns meses de infelicidade, Belizário acordou disposto, revigorado e pronto mais um dia de trabalho. Estava convencido de que aquele dia seria totalmente seu, pois o céu estava lhe sorrindo e os pássaros alegres, admirados pela sacada de casa. Se arrumou como nunca antes, tomou café reforçado junto de Fábio, Antônio e Washington. Os filhos saíram na frente, ele ficou mais um pouco, aproveitando o silêncio da casa vazia e o vento vindo das janelas. Minutos depois Belizário escovou os dentes, minimizando o péssimo odor da boca e, aliviado, também seguiu para a loja. Chegando lá, até os funcionários estranharam o bom humor do patrão e cochichavam entre eles qual seria o motivo da alegria inédita. O tempo melhorava tudo porque fazia as pessoas esquecerem e amenizarem o que antes, por algum motivo, havia lhes tirado a paz. Essa parecia ser a filosofia decadente de Belizário: o esquecimento e, como resultado, o retorno natural da vida. Ele esquecia que o normal só voltava a acontecer somente para ele. Tinha trabalhado muito durante aquele dia, estava disposto a passar algumas horas a mais no escritório porque havia chegado atrasado e, claro, a atitude deveria servir de exemplo para os outros. Se aproximando das 18h, no final de expediente, enquanto os empregados iam fechando e organizando tudo para o dia seguinte, sem ninguém perceber, entrou na loja um sujeito encapuzado, um pouco perdido na grandiosidade do lugar e optou por ficar ali mesmo esperando a saída de todos os funcionários. Para evitar ser visto e ter seus planos arruinados, se escondeu no departamento de eletrodomésticos por conta do tamanho dos móveis e por ter reparado as luzes apagadas logo quando entrou. Conferindo na mochila se o que precisava para concluir o plano estava lá, viu no fundo uma sala com a porta entreaberta e algumas vozes embaralhadas conversando no telefone; era o patrão numa ligação amorosa, aparentemente, com a amante, o motivo de toda felicidade. Sem pensar muito e convencido da tarefa que estava obstinado a cumprir, o sujeito correu como uma flecha e chutou a porta com toda força assustando Belizário que estava tocando as partes íntimas e com a calça próxima dos pés. Na sequência muito bem efetuada, com quatro golpes de faca, o rapaz acertou precisamente o coração e o abdômen do chefe da família Silva. Sem reação e nenhum grito, Belizário amargou seus últimos instantes de morte ali mesmo, nu, com o celular ainda em ligação numa mão e na outra o membro já sem ânimo e minguado. O corpo não possuía honra apresentável para o primeiro que o encontrasse no outro dia. A verdade daquele sujeito perturbado, escondida e renegada por anos, estava exposta no mais íntimo de sua profundidade. Ela, agora, era de todos aqueles interessados em saber, pois não estava mais sob o controle maquiavélico de um homem insolente. O responsável pela grande barbaridade saiu de cena sem ao menos olhar para trás, sem nenhuma dó. Alguns dias antes ele havia conseguido, numa oportunidade familiar, a chave de uma das portas de saída, facilitando a despedida do lugar. Muito tranquilo a respeito da motivação daquele desfecho fatal, o jovem rapaz não se preocupou em momento algum se seria visto por alguém ou se alguma coisa o incriminaria futuramente. Na real, pouco importava naquela altura. Já bem longe da podridão deixada no chão do escritório, sorriu feliz por ter livrado muitas pessoas da arrogância daquele senhor intragável, odiento e maldoso. Nessa situação não há culpados, mas é sabido por muitos quem foi o autor da morte de Belizário.
Isso foi pela minha mãe, demitida sem ter feito nada de errado, e pela vez que me fez sair correndo da sua casa como um pecador. O tempo nunca passou para as suas vítimas, desgraçado! – pensou o rapaz de estatura alta, caminhando satisfeito pela rua e limpando o óculos sujo de sangue.

 

Fim
***
Com a morte de Belizário, Antônio tentou assumir a tão sonhada liderança da loja da família, mas não imaginava a briga que travaria com Fábio. Irritado, sem nenhum juízo e ainda sob efeito do luto, Antônio envenenou a água do irmão na missa de sétimo dia do pai. Uma dose cavalar de estricnina fez o mais velho dos filhos perder o ar e se contorcer na frente de todos os presentes. Sem entender nada e assustado, Washington mandou chamar a ambulância, mas nada reverteria o estado do irmão. Fábio morreu sete dias depois do pai.
A repercussão dos acontecimentos foi estrondosa. A grande barbaridade seguida do envenenamento estampou todos os noticiários por inúmeros meses adiante, fazendo da loja herdada por Antônio um grande campo minado e totalmente às moscas. Sem condições de manter a empresa em funcionamento por conta das diversas dívidas e falcatruas para se manterem de pé, só restou para o ex-novo chefe fechar as portas e viver o restante da amargura. Felizmente, nem isso ele pode: os exames médicos feitos em Fábio acusaram o veneno dado por ele. A polícia fez uma sondagem em todos os presentes no dia da missa e chegaram a Antônio, sendo preso imediatamente enquanto fugia para outro país. Cumpriu pena de doze anos e, ocasionado pela péssima convivência com os detentos, teve inúmeras sequelas físicas e psicológicas.
Não muito tristes, mas abatidas, a viúva de Belizário e filha mais nova, Tereza, tiveram que se mudar do prédio onde moravam. Sem a loja para bancar o nível de conforto, foram para um bairro mais popular e tentaram juntas uma vida simples. A filha gostava de estudar e almejava ser reconhecida profissionalmente no futuro. Herdou alguns traços do pai e dos irmãos mas, pela falta de convívio e por sorte, conseguiu ser uma jovem comprometida com a própria história. No futuro se formaria em sociologia e teria uma carreira acadêmica exemplar, servindo de modelo para estudantes de outros países.
Antes de se mudar com a irmã e a mãe e preocupado com o pedido feito há meses Marcos, enfim, foi procurar saber se o porteiro tinha recebido algo parecido a uma caixa, de tamanho médio e com o nome dele. O funcionário prontamente lembrou de ter entregado ao falecido pai do garoto. Agradecido, subiu de volta e procurou nas coisas que ainda restavam de Belizário. No canto do guarda-roupa estava um embrulho amarronzado e muito bem embrulhado. O rapaz não saía fazia tempo. Desde a briga com o pai a situação piorou, por isso decidiu comprar à distância um presente para ele mesmo; um perfume amadeirado, parecido com aquele sentido pela última vez, no próprio quarto. Na tentativa de se sentir mais próximo do antigo companheiro, quase assassinado pelo pai, Marcos usava o perfume para lembrar dele. A distância entre os apaixonados não durou por muito tempo.

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Afim de tornar mais clara essa narrativa, em breve farei uma explicação dando detalhes e evidenciando pontos que talvez passaram despercebidos. ‘Foi você’ foi a primeira criação ficcional deste que lhe escreve.

MESA22

Conto | Foi você

Desejar a morte de alguém, seja quem for, nunca será a melhor opção para a manutenção da civilidade. Pensando nisso, decidi dar vida a esses personagens complexos em suas relações e convívios sociais. Eles não existem no mesmo plano onde eu e você estamos, são ficcionais e reforçar isso é importante. Em quase oposição a essa perspectiva, o mundo real tem atravessado um momento complicado e devastador. A pandemia do coronavírus mudou a rotina de muitos seres humanos, alterou a rota de grande parte dos animais e até acordou vulcões adormecidos há anos. Mesmo com essas inúmeras mudanças, alguns personagens reais espalhados pelo globo optaram pela continuidade do habitual – maldade, egoísmo, psicopatia -, sem atentar para os malefícios disso sobrepostos à crise. Esses sujeitos poderosos, em diferentes níveis, acabam se tornando, incansavelmente, aliados desse vírus. ”E daí?”

O que resta para a massa consciente, verdadeiramente preocupada, é a revolta e a indignação contra esses que podem ajudar a salvar vidas mas, como projeto pessoal, optam pela morte. Nesse cenário há muitos culpados, nesse outro paralelo, apesar da brutalidade, não há.

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Somos uma aldeia

O que poderia ser mais letal que o governo Bolsonaro? O governo Bolsonaro sob efeito de uma pandemia viral. Coronavírus é o assunto do mundo e combatê-lo tem sido a principal política adotada pelos chefes de Estado. Alguns países estão fechando as fronteiras, outros sugerem isolamento compulsório e o Brasil adota medidas para punir aqueles que aproveitam o momento para fazer social e ir à praia. Por outro lado, numa ótica humanista e compreensiva, nossa pátria amada também acha decente aumentar o preço dos produtos relacionados ao combate do vírus. Não obstante, o presidente do país chancela uma manifestação pró-governo desrespeitando ordens médicas e instruções dos seus próprios ministros. Para ele, o covid-19 não passa de uma ‘histeria’ propagada pela mídia e que todo esse estrago é um plano maquiavélico do governo chinês. Circula na internet o boato que ele testou negativo para a presidência.

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As férias acabaram e a praia não chorou

Os meses que a antecederam foram bastante cansativos. Desejá-la nunca foi tão importante. Ainda em novembro era possível sentir o cheiro dela. Os dias alongados, a falta do quê fazer e o bate papo furado na cozinha com a vó eram situações aguardadas. Enquanto passa na televisão o concerto Colour of Your Dreams, da Carole King, vai ficando mais claro que ela veio e se foi. Férias, estar contigo foi muito bom. Com você fiz vários nadas o que, na verdade, era o mais desejado da sua existência. Obrigado pelas horas bem dormidas, por me engordar uns quatro quilos, por me levar para uma turnê médica e, por conta disso, quase morrer psicologicamente. Mente vazia a oficina é de quem? Da falta da razão, claro! Agradeço, sinceramente, pelas ótimas leituras proporcionadas. Viajar, conhecer personalidades, se transportar para outro tempo e aprender novas histórias foi o máximo. É bem verdade que deitado se vai ao longe. E eu fui. Na padaria mesmo fui pouquíssimas vezes.

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Tirando o atraso literário

Em dezembro minha última pauta de rádio na faculdade teve a literatura como tema. Trouxe dados nacionais e misturei com as realidades daquele lugar no qual estou inserido. A fim de tornar a matéria mais dinâmica, propus uma enquete no Instagram perguntando aos meus seguidores quais foram os últimos livros lidos, se eles tinham o hábito de leitura e o motivo de não gostarem de ler. Um pouco parecido com o levantamento feito pelo Instituto Pró-Livro, em 2016, no questionário que fiz, 74% dos participantes informaram ter o hábito de leitura, enquanto 26% afirmou não ler absolutamente nada; 30% disse não ter tempo para o livro.

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