Burchard em detalhes

Alemão com alma caiçara, Burchard construiu todo seu empreendimento artístico explorando diversos mundos e diferentes realidades, mas foi em Paraty, a partir da década de 1970, a ancoragem mais frutífera e inspiradora do artista. Ao lado da companheira Lore Hacker, desbravaram juntos as possibilidades que a cidade litorânea tinha para oferecer. Na altura, o município estava longe de ser destino turístico e ainda se via sob efeito da rusticidade da história. Dentre os lugares onde o casal viveu, o Saco do Calhau ainda é lembrado com certa nostalgia. Lá, ambos deixaram e também extraíram suas marcas sem nada dever. ‘’Toda a história dele, toda nossa história… foi em Paraty’’.

Hartwig Burchard (1920-2014) aprendeu o ofício da arte de forma autodidata, na experiência do fazer. Sem pensar muito nos efeitos da escolha, abandonou a rotina empresarial bem-sucedida aos 53 anos e decidiu, quase como uma ordem inconsciente, seguir os instintos vindos de influenciadores como Leonilson, pintor cearense; Roland Barthes, escritor francês que, entre outros temas, se debruçou sobre os estudos da semiótica; Jean-Michel Basquiat, popular neo-expressionista norte-americano, e Pietro Maria Bardi, jornalista e grande incentivador. Tendo em vista o peso cultural dos nomes citados, evidencia-se a pluralidade de fontes no qual Burchard se embebia para a construção de seu acervo prático e estético.

Burchard, em Paraty.
Foto: Acervo burchard.com.br

Tanto o artista quanto a sua produção, se for admissível separá-los, gritam por liberdade e fogem do estrelato comercial e glamoroso comum ao meio. Essa não era a busca desse intelectual da arte. Ao contrário, renegava todo esse assédio pois já o experimentara no período precedente ao artístico. Nem mesmo os sentidos de suas criações fazia questão de perseguir ou amarrar numa descrição de rodapé, ainda que o fizesse sem muita fidelidade. ‘’A grande liberdade é desenvolver o processo individual de criação, pintar a linguagem de nosso tempo e deixar que a crítica e o público a julguem’’. Dizer para Burchard o quanto alguma de suas peças eram bonitas ou inspiravam qualquer traço de harmonia, para ele, soava como ofensa, além da possibilidade do descarte do objeto elogiado, atitude essa nunca confirmada de fato, mas já demonstrando característica subjetiva de um criador autêntico. Philip Burchard, filho do artista, disse que ‘’a pior coisa era isso mesmo. Ele detestava. Tinha que ser agressivo, forte, pesado’’. E concluiu: ‘’Ele preferia uma reação mais violenta’’.

O artista se interessava, entre outros aspectos, pela provocação e nas diferentes inquietações da individualidade. Pouco importava os desejos outrora perpassados no ato da feitura, embora não admitisse que fizessem de sua obra um bibelô para enfeitar janelas. A busca crucial de Burchard estava na crueza do fenômeno visto justamente por essa janela, ou seja, o mundo e a dureza irretocável dele. O interesse a todo custo pelas significações, assim como a divagação unicamente contemplativa, limitava a arte. Na mesma linha crítica, para ele, as comparações feitas com outras obras e artistas, partindo das próprias criações, eram entendidas como algo de pouco valor. Para além da autonomia da percepção pública, nesses posicionamentos mais pessoais, ele defendia a singularidade artística dele e de seus pares. Grosso modo, estava dizendo o quanto é improdutivo procurar semelhanças nas subjetividades da arte.

Monotipia é uma técnica desenvolvida pelo próprio artista. Essa obra não possui título.
Foto: Acervo burchard.com.br

Sob o título ‘Burchard’, o livro organizado por Lore Hacker, Jayme Nigri e Ric Peruchi, produzido pela editora Paisagem, chega ao mercado editorial fazendo jus à qualidade pessoal e artística de Hartwig Burchard. Dividido em três eixos centrais, a produção abre com uma conversa entrosada entre Lore e Philip, onde rememoram histórias ambientadas em Paraty e experiências protagonizadas pelo ex-companheiro e pai. No segundo bloco, o registro se volta para o pensamento consciente e a produção criativa desse homem incomodado com as injustiças e disparidades percebidas nos espaços que transitou. Em detalhado ensaio intitulado ‘Hartwig Burchard: poeta de vários mundos’, quem arremata e rebusca tudo que foi apresentado até ali é a escritora e jornalista Veronica Stigger. Nessa conclusão, a autora conduz o(a) leitor(a) ao íntimo desse viajante político, visionário e com mais de sete mil peças de seu acervo perdidas durante um incêndio na Alemanha, em 1997. Mesmo com parte expressiva da produção resumida a cinzas, decidiu começar de novo pois compreendia o quanto tal atitude movia sua vida.

Primeiro registro unificado, livro reúne obras, escritos políticos atualizados, e rememora trajetória pessoal do artista.

A produção ainda estampa inúmeras imagens das obras de Burchard, assim como os lugares onde viveu com a família e desenvolveu suas técnicas, entre elas a monotipia — sobreposição de desenho, pintura e gravura. Reconhecer o valor literário interligado às obras do ceramista é um movimento necessário na busca de entendimento do passado e do presente. O legado de Burchard é marcado por esculturas, telas, cores, formas e filosofia. Para além do trabalho artístico e manual, ele nutria certa admiração e zelo pela força das palavras. Esse conjunto de características saltam aos olhares críticos e admirados de quem se confronta com suas criações.

Um artista à frente de seu tempo

Muito além do ceramista implacável e com exposições nas principais galerias do mundo — Museu de Arte de São Paulo, Museu Nacional de Belas Artes, Galeria Jardim das Artes, Galeria Point (Alemanha), The Print Club Gallery (EUA), Salon Marine (França) — Burchard fez da arte sua filosofia de vida e, da arte, a própria filosofia. A troca das palavras aqui assemelha-se ao apreço que ele tinha pelos códigos. Toda a elaboração cognitiva do autor, externada nas criações, desembocou em um rio corrente de perspectivas filosóficas e, no modelo clássico das ideias, sugeriu vislumbrar um criador incansavelmente vivo e revoltado com as arbitrariedades estruturais enfrentadas no cotidiano. A mentalidade abrangente e preocupada de Burchard guia a atualidade para o progresso e, sem burocracia, faz com que as pessoas tenham consciência de estarem sendo encaminhadas para a esteira do abatedouro ético e civilizatório. O ‘Panfleto sobre o destrutivismo’, de 1980, está para a dinâmica desenfreada da modernidade capitalista assim como um desfibrilador está para o paciente nas horas finais. Se ainda restasse ar, portanto, o reconhecimento prático daquilo escrito por Burchard, a destruição não seria um método e o principal ativismo do homem.

”Panfleto sobre o destrutivismo”, de 1981. Peça de cerâmica está no Atelier 18, no Centro-Histórico de Paraty.

Espantosamente atualizado, Burchard parece dialogar incisivamente com as pautas latentes do nosso dia a dia. O que o autor deseja transmitir com o panfleto em questão? Mostrar o fim, ‘’estilhaços, destroços, escombros, sucata fundida, entulho e cinzas, resto de tudo após a destruição total que inevitavelmente será o prêmio da atuação do homem em nosso planeta.’’ Ora se não parece um espelho das notícias mundo afora. Guinadas fascistas, operações policiais desordenadas, a Amazônia em chamas no ano passado são situações que ambientam o pensamento burchadiano sem muito esforço da memória. Inclusive, é esse o desejo proposto por ele: ‘’Minhas esculturas são simples e inequívocas, sem símbolos nem alegorias. Nada de surrealista, místico ou dedutivo. A apreciação destes trabalhos não exige esforço mental.’’

Inspirado por uma frase do nobre Antônio Cícero, poeta e irmão da cantora Marina Lima, Burchard se apropriou da máxima onde é dito, entre outros trechos, ‘’a voz de um poeta de vários mundos’’. Imaginá-lo como poeta propõe a todos argumentar justamente o oposto. Mesmo com toda vocação literária e pensamento crítico aflorado, etiquetá-lo como tal esvazia parte da bandeira crua e disforme hasteada por ele. Não há, em parte alguma, menosprezo ao fazer poético, é importante salientar. A poesia como um campo da literatura se interessa por inúmeras problemáticas e também lida com inquietações, por vezes, similares as dele, embora exista uma suspenção da realidade e algo que, claramente, não combina com Burchard: a romantização. Sobre o poeta paira ideias estéticas pré-formatadas socialmente. De forma abrangente, existe um polimento na poesia que não encontramos nesse artista à frente de seu tempo. Se fosse possível associar Burchard a alguma deontologia, uma atividade profissional que não fosse essa no qual é reconhecido, a área onde refletiria sua praxis se aproxima a da alvenaria. Pelas mãos de um pedreiro passam instrumentos como: tijolo, pedra, tinta, lápis, metragens e a noção tátil do lugar em construção. Um pedreiro está diretamente em contato com a realidade seja ela qual for, chuva ou sol. Sem sua intromissão no mundo nada é levantado; assim como tudo pode desabar se não for cumprido os instintos éticos da atividade. É nesse movimento de caráter quase vital onde se revela a arte de Burchard. Acrescentar as expressões ‘construtor de vários mundos’ ao título do ensaio brilhantemente escrito por Veronica Stigger, baseado em Antônio Cícero, também parecem fazer justiça à sua obra.

Albert Camus, jornalista e filósofo franco-argelino, numa perspectiva diacrônica do pensamento se encontra com Burchard: ambos são atemporais e revoltados, de acordo com a definição proposta pelo autor de ‘O Estrangeiro’. O que é um homem revoltado? Pergunta e responde Camus no início do livro publicado em 1951: ‘’Um homem que diz não.’’ Burchard e Camus estão diante das dificuldades sociais e, na tentativa de estancarem o sangue do tempo, dizem não. Ao se manifestarem na realização do ofício que os movem, dizem sim à justiça, à liberdade individual e à defesa absoluta da arte. O revoltado defende aquilo que ele é. Assim como o livro ‘A Peste’ (1947) traduz com detalhes a amarga pandemia desse novo século, ‘Panfleto sobre o destrutivismo’ parece ter sido publicado durante, por exemplo, as eleições de 2018. Ao invés dos famosos e poluentes ‘santinhos’ com o número dos candidatos, uma alternativa mais consciente seria a distribuição do panfleto de Burchard pelas ruas do Brasil. Para o bem da humanidade, é dever geral pensar no grito de alerta escrito por ele quarenta anos atrás.

Livro: Burchard

Páginas: 213

Editora: Paisagem (1ª edição – Dez/2020)

Onde comprar: Amazon, Mercado Livre, Atelier 18 (Paraty) e outros

Preço: $140,00

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Após a leitura de ‘Burchard’, novo livro que resgata parte expressiva da história do artista, músicas e composições saltaram à memória, resultando tal lista de reprodução. Ouça a playlist Burchard em detalhes no Spotify. Músicos como Simone, B.B. King, Tim Bernardes, Marina Lima e muitos outros estão nessa seleção.

Eu tenho horror a pobre

As primeiras horas de 2021 foram muito especiais, contrariando o sufoco do ano que passou. Primeiro com a família, rememorando as dores dos últimos meses e também projetando as possibilidades dos novos dias que se anunciam a todos nós. Depois, numa mudança de cenário e mentalidade, me vejo em volta de oito distintas pessoas da média burguesia paulistana e carioca. Tinha uma salvadora da pátria, mas ela era europeia. Dividi minha virada em três momentos: sagrado, purgatório e profano. E aqui destaco o segundo.

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Fordismo da aparência

Duas semanas atrás estava conversando comigo mesmo no Twitter sobre um tema que tem me interessado bastante: a busca pela beleza. Rolos e mais rolos de selfies estampam as redes sociais com aquilo que de melhor temos para mostrar: nosso rosto, bunda, partes íntimas, cabelo e por aí vai. O confinamento causado pela pandemia estimulou ainda mais a exposição de nossos eus, enquanto alguns, sem nenhuma timidez, se exibem em festas ou encontros amigáveis. Ou seja, a sede pela exibição é tamanha que nem durante isolamento pandêmico o sujeito para de produzir reflexo de si. Ele precisa postar seus status e afazeres egoístas mesmo sob olhar crítico daqueles que ainda se mantém reclusos — ou minimamente afastado dos outros. Sem se dar conta do momento inoportuno, imagino que narciso deve achar bonito o que publica nas redes.

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Então é eleição

Então é eleição, e o que o candidato fez? (Uma parte fez muita merda, já outro preferiu usar as nádegas para esconder dinheiro. Quem trabalhou não fez mais que a obrigação, convenhamos.)

O mandato terminou e nascerá outra vez (O mandato de um acabou, recentemente, porque duvidou da letalidade do vírus e agiu contra o distanciamento social. O que vai nascer é mato, olhado direto da raiz.)

Então é eleição, a festa da democracia (No Brasil atual eleição nem é mais sinônimo de democracia, na verdade virou mais uma porta para autoritários chafurdarem imundícies. Não é o fim. Pense no seu voto.)

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Ao Vivo | Setembro Amarelo

E disse Albert Camus: ”Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois.”

É com as palavras do escritor franco-argelino, escritas no livro ‘O Mito de Sísifo’ (1942), que abro essa publicação sobre a temática do suicídio. Desde que o mundo é mundo procura-se respostas para esclarecer essa problemática multifatorial que se mantém rodeada de tabus e dilemas até os dias de hoje.

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Por muito tempo a chamei de mamãe

Nas primeiras horas do dia 17 de dezembro de 2019, por volta das 3h10 da madrugada, mamãe partiu dessa vida. Diferente de Meursault, não titubeei na certeza: ela havia partido. Meu telefone tocou inúmeras vezes mas, por estar no modo silencioso, não escutei nada. Pela manhã, quase oito horas, reparei as ligações não atendidas da minha tia, Carolina, e a mensagem que dizia objetivamente: ”Sua mãe morreu.” Nesse momento me recordo do nada, da sensação de total suspensão da vida, me lembro de andar pelo corredor da casa sem saber o que pensar. Foram cinco minutos cinematográficos; veio toda memória, os aromas, conflitos e ao mesmo tempo o nada quase palpável. Não chorei na primeira hora. Depois de aterrizar a parte traseira do meu infortúnio, liguei para minha avó e tia. Ambas estavam desoladas e eu, em outro estado, na tentativa de consolá-las, acabei sendo consolado por elas, principalmente pela matriarca, agora sem a primogênita. Nesse mesmo dia precisava cumprir algumas atividades da faculdade e cumpri, apesar de tudo. Era final de semestre, estávamos todos esgotados e havíamos agendado para aquele dia infeliz, sem imaginar o ocorrido logicamente, um churrasco de confraternização e encerramento do período letivo. O encontro aconteceu, conseguimos rir das últimas situações da faculdade, mas só meu corpo físico estava lá. Se preocuparam em reagendar a festa, mas não fazia sentido dividir minha perda desse jeito. Numa leve contradição, tal atitude seria egoísmo. Inclusive, meus amigos(as) foram muito gentis comigo. Distante da minha família sanguínea, desequilibrado psicologicamente, eles(as) atuaram com o apoio emocional e afetivo que eu precisava. Assim como o Vittor, o único elo que me unia à minha casa, à minha vó e à minha mãe. Seria impossível aguentar os dias que antecederam minha viagem sem os cuidados dessas pessoas. Ela morreu numa terça, mas só consegui chegar em Paraty na sexta-feira, dia 20 de dezembro. A tristeza, enfim, encontrou seus pares.

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Sesc Paraty | Religião e diversidade, Pastor Henrique Vieira e Matheus Ruffino falam sobre os temas

Religião e diversidade sexual podem ser assuntos discutidos de forma cordial e complementar? Muitos vão dizer que não, mas as temáticas não só podem se cruzar, como devem ser entendidas de modo amplo e prático. Bom, foi essa a tentativa estabelecida entre mim e o Pastor Henrique Vieira, conhecido por sua visão humanizada e progressista daquele que pode ser Deus. Numa conversa sugerida pelo Sesc Paraty, falamos sobre nossa relação com a religiosidade e o quanto a igreja atravessa a comunidade LGBTQIA+ de diversas formas, causando estigmas e sensações das mais variadas.

O podcast mediado pela jornalista Carol Bataier e pela idealizadora do projeto Papo Dez Priscila Rodrigues versou sobre o papel das instituições religiosas na atualidade, a importância de contemporizar os textos bíblicos, principalmente aqueles usados para justificar lgbtfobias, e também contribuiu para jogar luz sobre a definição de um Deus humano e mais próximo desses corpos diversos, por vezes, renegados por cristãos intolerantes.

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Bastidores de ‘Foi você’

A ideia para a criação desse conto surgiu durante uma insônia movimentada, como quase todas que aparecem durante a noite. Antes de dormir a cabeça deste que lhe escreve vira uma panela de pressão e, ocasionalmente, é preciso anotar algumas ideias no bloco de notas do celular. São frases nunca ditas, possíveis pautas para essa plataforma, filosofias baratas e trechos de textos já em andamento. Acredito que todos e todas que possuem o hábito de escrita ou composição de algo textual já passou ou passa por essa descarga de ideia; ela simplesmente vem e precisa de amparo. No dia seguinte, quase sempre, ela perde um pouco daquele tesão inicial, mas ainda assim ilumina a composição do objeto produzido.

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