Tirando o atraso literário

Minha última pauta de rádio na faculdade, em dezembro, teve a literatura como tema. Trouxe dados nacionais e misturei com as realidades daquele lugar no qual estou inserido. A fim de tornar a matéria mais dinâmica, propus uma enquete no Instagram perguntando aos meus seguidores quais foram os últimos livros lidos, se eles tinham o hábito de leitura e o motivo de não gostarem de ler. Um pouco parecido com o levantamento feito pelo Instituto Pró-Livro, em 2016, no questionário que fiz, 74% dos participantes informaram ter o hábito de leitura, enquanto 26% afirmou não ler absolutamente nada; 30% disse não ter tempo para o livro.

Nessa mesma programação, do nosso saudoso e cansativo Jornal 25, comentei quais foram os principais autores citados pelos meus colegas, na enquete lá na rede social. Apareceu Raduan Nassar, com ‘Lavoura Arcaica’, Marcelo Rubens Paiva, com ‘Feliz Ano Velho’, Jorge Amado, com ‘Mar Morto’ entre outros. E falando dos internacionais, apareceu o queridinho português Valter Hugo Mãe, com ‘Filhos de Mil Homens’, a italiana Elena Ferrante, com ‘Dias de Abandono’ e Albert Camus, com o clássico ‘O Estangeiro’.

Por conta das atividades habituais de cada final de semestre, o encontro com a literatura quase sempre é escanteado. Os textos acadêmicos ficam em dia, mas os romances, os contos, colunas de humor e opiniões, nessa correria universitária, ficam em segundo plano. Não é mesmo, universitários? Uma ou outra obra consegue romper esse corre-corre, mas é bem verdade que é preciso uma logística especial para conseguir dar conta de tudo. Pensando nisso, não era justo iniciar 2020 com as leituras atrasadas: novo ano, leituras em dia.

Compro livros quase todo mês. Ainda é prazeroso abrir e tocar às folhas. A modernidade e seus kinldes ainda não me alcançaram — ainda. A meu ver, o seguimento literário deveria ser fortalecido diariamente, não o inverso. Comprar, doar, sugerir livros são atitudes necessárias em tempos como o nosso. Os dados em relação a isso não são tão animadores. De acordo com o IBGE, em 2001, as livrarias estavam presentes em 43% das cidades do país. De lá pra cá, esse número caiu para 17%. Ou seja, os espaços de venda de artigos literários estão sumindo. Uma sociedade que menospreza os livros e seus efeitos corre o risco de ficar à mercê dos podres poderes.

Na intenção de contribuir com o nicho da literatura e com o meu gosto pelos livros, claro, venho montando uma biblioteca há alguns anos. Não são muitos, espalhados, devem chegar a 100 exemplares; mas em ascensão. Meses atrás comprei mais alguns e direcionei a entrega deles para minha casa, em Paraty, para serem lidos durante as férias. Nessa compra foram cinco títulos, e ainda trouxe mais um para ser lido durante a viagem Bahia x Rio. Desses seis já foram lidos três e é sobre eles que falarei aqui.

Nas redes sociais, sempre topava com as obras desse escritor. Nunca havia lido e não sabia por onde começar a lê-lo. Estou falando de Gabriel García Márquez, o colombiano do realismo mágico e laureado com o Nobel de Literatura em 1982. Fui sugerido por um especialista em Gabo a não começar pelo clássico ‘Cem Anos de Solidão’ (1967). Assim o fiz. Iniciei minha experiência fantástica com ‘Crônica de uma Morte Anunciada‘ (1981) e, de fato, foi a melhor iniciação a um autor. Foi possível perceber a dinâmica textual e o modo como ele constrói e dá voz aos seus diversos personagens, pontos essenciais na escrita de Márquez. Dele também, estou lendo ‘Do Amor e Outros Demônios’ (1994), mas falarei sobre esse numa outra oportunidade. Vamos a breve resenha sobre o ‘Crônica‘.

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Tradução: Remy Gorga | Editora: Record | Páginas: 157 | Edição: 54ª

Uma mentira cinicamente contada e a descrença geral perante uma desgraça que viria acontecer fez com que Santiago Nasar morresse, brutalmente, na porta de sua casa.

Num enredo com inúmeros personagens e declarações, Gabriel García Márquez traz para o leitor, no meu ponto de vista, uma grande-reportagem que nos prende do começo ao fim, mesmo sabendo que o personagem principal morre.

Com brilhantismo na escrita literária, mesclada com gêneros jornalísticos, ‘Crônica de uma Morte Anunciada’, pode sugerir também, em tempos atuais, uma espécie de indiferença coletiva (individualismo moderno). É discutido por aí uma série de problemáticas que nos rodeiam e pouco é feito para, de fato, mudar o triste final. Parece que todos nós temos parte da culpa nos infortúnios reais que presenciamos.

Angêla Vicário mente e a partir daí o desenrolar de toda a problemática e, consequentemente, o assassinato. Um sujeito perde a vida tendo a sua morte anunciada para todos os seus vizinhos, amigos e moradores do vilarejo. Ninguém consegue evitar em tempo a tal tragédia. Todos desacreditavam que aquilo poderia acontecer, todos seguiam suas rotinas de modo natural. Os poderes públicos oficiais – polícia, igreja, prefeitura-, poderiam, efetivamente, ter salvado Santiago, mas haviam outras urgências; que não era a vida de um sujeito. Coube, portanto, a sociedade civil fazer o papel bárbaro: tanto na morte em si quanto na admiração do espetáculo de sangue. Virei o ano lendo esse e não me decepcionei em nada. Quanto ao final, só digo uma coisa: é inquietante.

Frases marcantes:

“O amor também se aprende.”

“A honra não espera.”

Como nem tudo são flores, na literatura a gente se surpreende negativamente com alguns clássicos. E mesmo assim, eles estão aí para serem lidos e criticados. Talvez seja essa a função literária dele. Fui convencido a ler ‘O Apanhador no Campo de Centeio’ (1951) através de uma coluna da Tati Bernardi, na Folha de São Paulo. Lá, ela me convencia a conhecer o personagem principal dessa obra escrita pelo J. D. Salinger. Possuidor de uma inconveniência juvenil, Holden Caulfield é um estudante de classe média, mentiroso, nada fã de escola, que perambula pelas ruas de Nova Iorque e experimenta a liberdade de uma forma um tanto quanto infeliz. Esse personagem, para alguns críticos, teme a velhice e os efeitos dessa passagem do tempo no corpo e na mente. Isso tudo parece muito interessante e poético, mas a forma como o autor leva a narrativa nos cansa muito.

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Tradução: Caetano W. Galindo | Editora: Todavia | Páginas: 256 | Edição: 1ª

A minha opinião é bem estilo Holden Caulfield, o personagem principal do clássico ‘O Apanhador no Campo de Centeio’ (The Catcher in the Rye), de J.D Salinger, de 1951.

Que monólogo chato pra diabo! Há outros personagens na história, mas a aporrinhação e o nível de criticidade do Holden é tanta que parece que só ele fala, e só a presença insuportável dele existe. Nada nem ninguém é totalmente bom ou interessante para ele; nem mesma a tão adorada irmã, Phoebe.

Por ser expulso da escola, uma espécie de internato, peregrina de forma exaustiva pelas ruas de Nova Iorque a fim de passar o tempo até voltar pra casa e contar para os pais sobre a nova expulsão. O livro todo, praticamente, narra a história de um final de semana de um jovem irritante e caçador de intrigas e inimizades.

Não há um ponto alto nessa narrativa. É tudo meio fajuto e voltado para o umbigo do Caulfield. Há questões extras envolvendo o tempo, o ano e o modelo de escrita, fato.
Por ser uma história que se passa na década de 50, ela atua de forma dialógica: quando narra a realidade da época, visto que era aquele o espelho da juventude, e também quando rompe com um estilo literário nada habitual para o período; dramalhão adolescente.

Criticar negativamente clássicos nos coloca num lugar meio ‘Caulfield’. Coloca mesmo. Mas é preciso dizer: J.D Salinger, nesse livro, nos prende não por tecer uma história fantástica, ao contrário, por conta de um marasmo de fatos, ficamos à espera de um milagre que envolva esse jovem exaustivo em críticas e impaciências. E pasme, o milagre não vem. Ou talvez seja esse o milagre. No começo a gente ri da forma como Holden fala as expressões, o modo meio jovial que ele leva algumas problemáticas, mas vai ficando previsível. Tudo vira um grande círculo.

Esse livro contribuiu bastante com a formação de inúmeros jovens, principalmente os norte-americanos. Inclusive, era o livro que o assassino do John Lennon estava lendo. Rapaz, isso faz até um certo sentido. Faz mesmo. Tratei de terminar logo porque não queria entrar em 2020 lendo ele. O final é até fofo e singelo.

Frases marcantes:

”A marca do homem imaturo é querer morrer de maneira nobre por alguma causa, enquanto a marca do homem maduro é querer viver de maneira humilde por uma causa.”

“Sabe os patos que ficam nadando lá no lago, na Central Park, na primavera e tal? Será que você sabe pra onde eles vão no inverno, por acaso?”

Eu poderia sintetizar essa parte da publicação somente com o nome e o sobrenome desse escritor. Pois bem, falo de Albert Camus, ganhador do Nobel de Literatura em 1957, três anos antes de sua morte. Camus tem sido o meu autor predileto. Ele não gostava de alguns títulos que davam a ele, como por exemplo existencialista e filósofo. Jornalista, escritor, dramaturgo, galanteador, belo, poeta e interessado na vida em sua mais profunda compreensão podem ser algumas etiquetas atribuídas a esse franco-argelino, sim. O meu primeiro contato com a obra dele foi um capítulo do livro ‘O Homem Revoltado’ (1951), que dava conta de falar sobre arte e estilo. Desde então, Albert Camus e sua filoteratura me conquistaram. Depois li ‘O Estrangeiro’ (1942), ‘O Mito de Sísifo’ (1942) e, recentemente, terminei a ‘A Peste’.

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Tradução: Valerie Rumjanek | Editora: Record | Páginas: 287 | Edição: 26ª

Assim como Sísifo, que foi obrigado a subir uma pedra para alto de uma montanha e depois descê-la, por toda uma eternidade, do mesmo modo podemos dizer que a peste negra, nesse sentido, simbolizou a pedra que o Dr. Rieux, personagem principal, precisou suportar durante os meses que tal praga matou dezenas de milhares de concidadãos de Orã, na Argélia.

Como disse numa postagem anterior, agora acrescido do personagem de ‘A Peste’, originalmente de 1947 e escrito pelo meu franco-argelino predileto Albert Camus, Sísifo e Rieux somos nós, eu e você. A pedra e a peste que ambos precisaram enfrentar são as nossas misérias cotidianas. É esse o papel do homem revoltado: indignar-se perante o absurdo e continuar, independente das dores e perdas, sua trajetória de vida.

‘A Peste’ é um livro seco. Sentimos o calor, o sufoco e a dor daqueles que habitavam lá, naquela cidade banal e que ”por falta de tempo e reflexão, eram obrigados a amar sem saber.” Algo aconteceu e mudou a rotina daquele povoado: os ratos, que apareceram e se proliferaram feito gremlins, contribuindo com a epidemia da peste.

A grande chave dessa obra, para além dela própria, é o jogo de metáforas que o autor utiliza para criticar, veementemente, os regimes ditatoriais e a ocupação nazista de Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial, na Europa. Os ratos, como os militares; a prisão do jornalista simbolizando a censura aos meios de comunicação; o estado de sítio; o papel quase conivente da igreja católica e os campos de concentração, metaforizados com a falta de espaço para enterrar os corpos mortos contaminados com a peste negra. Camus é simplesmente brilhante na construção desse livro.

Frases marcantes:

”Uma forma conveniente de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre.”

”Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte.”

”Mas o que quer dizer isso, a peste? É a vida, nada mais.”

Nada mal começar o ano com esses personagens, não é mesmo? Façamos da literatura um hábito. Assim como tomar banho, que exige repetição diária, a leitura funciona no mesmo molde. Não esqueça disso. Aos que já fazem da leitura uma atividade diária, sigamos.

Fica para o mês que vem as resenhas dos outros livros que separei para as férias: ‘Do Amor e Outros Demônios’, do Gabriel García Márquez, ‘A Casa dos Espíritos’, da Isabel Allende e o ‘Diário de Viagem’, do Camus.

É válido destacar que cada um compreende e interpreta o livro de um modo. O que não é nítido para mim, pode ser transparente para você e vice-versa. Num bate papo futuro, essas diferenças serão importantes para a fluidez do diálogo.

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Agora é para todos

Paraty, no litoral fluminense do Rio de Janeiro, se torna Patrimônio Mundial. A biodiversidade e os povos tradicionais foram critérios essenciais para o reconhecimento concedido pela Unesco.

Quem nasce em Paraty é paratiense. Quem visita ou simplesmente conhece por fotos e vídeos é encantado. A cidade que fica a pouco menos de 300 km da capital carioca, desperta atenção de todos que cruzam com ela. Paraty é trifurcação para lugares consideravelmente antagônicos em sua construção. Estando na entrada, bem no trevo de acesso à cidade, é possível enxergar nas sinalizações quais são esses destinos. Angra dos Reis, onde ficam as usinas Angra 1, 2 e 3, cidade mais desenvolvida economicamente e o paradeiro predileto dos famosos globais e internacionais. Cunha é um lugarejo frio, conhecido pelos rodeios e cheio de ladeiras e depressões geográficas, situado a leste de São Paulo. Enquanto a outra paulista, Ubatuba, uma mistura das duas estâncias anteriores, é mais procurada por jovens e surfistas. Diferente das demais, a cidade histórica com cerca de 40 mil habitantes agora, mais do que nunca, é para todos. Desde julho desse ano, quando foi reconhecida como Patrimônio Mundial, numa cerimônia em Baku, no Azerbaijão, Paraty recebe nos seus limites territoriais gente ainda mais diversa: interessados em arquitetura e natureza, praieiros, pessoas de 15 a 90 anos, intelectuais e celebridades de toda ordem.

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E sabe escrever?

De imediato, a resposta é sim. Publicitários sabem escrever. Pensar e defender o contrário disso é, no mínimo, um ato de ignorância de quem o faz. Tenho dois amigos publicitários e ambos escrevem muito bem. Uma, inclusive, me ajudou na escrita de um artigo e tem texto publicado em livro.

É preciso falar sobre interpretação, a chave que impediu o entendimento de alguns que compartilharam comigo a fatídica mesa sobre Jornalismo de Dados.

A pergunta que problematiza logo no título está associada a uma manifestação minha, feita durante um debate proposto pela universidade para pensarmos a respeito da pluralidade de informações que o jornalista pode lidar na atividade profissional a fim, claro, de enriquecer as matérias, dinamizar os temas e apurar os fatos. Até aí tudo bem! De fato, é preciso enxergar outras formas de alcançar novos públicos e tornar o jornalismo mais interessante e convidativo, mas não em detrimento do que está posto há milênios. Há, desde então, revisões e aprimoramentos para a área, e isso deve ser tratado dentro do próprio fazer jornalístico, dia após dia, de tempos em tempos. O Messias para os problemas do Jornalismo não deve ser a Publicidade e Propaganda.

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Jornalismo, Moda e Comunicação

É recorrente nas redações e meios de comunicação o pensamento que aponta o jornalismo de moda como sendo um subcampo do jornalismo tradicional, um setor renegado a editoria e desmerecido, ocasionalmente, por companheiros da profissão que atuam em outras especialidades. Os motivos são diversos: se imagina que o jornalista de moda não trabalha pesado, que o objeto de trabalho é de pouca importância para o grande público e que eles não lidam com ‘’pauta quente’’, aquela que demanda certa urgência na apuração e publicação. No campo mais amplo dessa discussão está parte da sociedade munida, igualmente, de discursos que segregam os sentidos da moda. Muitos não enxergam a pluralidade e os efeitos que a moda reflete no campo prático do cotidiano — seja por falta de interesse, seja por não perceber nesse objeto riqueza de valores.

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25 anos

Parabéns para mim!

Pensando bem, já estou na metade dos 50 anos. Mesmo faltando outra vida para completar essa idade, pensar nisso me causa algumas inquietudes. Mas não quero falar sobre o futuro, só comecei dessa forma para parecer dramático e exagerado. Inclusive, essas são características que me acompanham no presente. Não pretendo trazer à tona situações corriqueiras acontecidas comigo tempos atrás. Aliás, por falar em passado, nasci sete meses depois do Plano Real e, por azar, vim ao mundo no governo de Itamar Franco, que assumiu o poder após a renúncia de Collor. Nove anos separam o meu nascimento do fim da ditadura militar e, por pouco, não assistia o Figueiredo na televisão. A intenção dessa escrita, talvez, seja reforçar algumas percepções da vida e lembrar de situações inesquecíveis e constrangedoras que me trouxeram até aqui.

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Aeroporto é uma viagem

Aeroporto é um lugar estranho. Pelo menos pra mim parece estranho. Nem falo só do preço das coisas, como por exemplo um chaveiro simples que custa  $15 e uma água sem gás $8. Mas não é só isso. O ambiente tem um cheiro diferente, mas não muito. É Lancôme pra lá e Paco Rabanne pra cá. Esse último, você pode ter certeza, é você pisar nesse lugar que o cheiro lambe seu nariz. Os banheiros são ótimos e tem sempre alguém limpando, e no lugar de papel para secar as mãos agora é um vapor que alterna entre quente e frio. Pensando na questão ambiental, até para compensar o tanto de perfume que aglomera por lá e que contribui negativamente com o buraco no ozônio, os aeroportos mandaram bem nessa mudança.

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