Entrevista | Memória e Fotografia: relato de quem tem e faz

Matheus Ruffino entrevista o fotógrafo Ivan Lima

As memórias de um fotógrafo que acompanhou as mudanças da sociedade e da tecnologia através das lentes da câmera fotográfica. Produziu um arquivo com quase cinquenta mil imagens em preto e branco e durante todo esse período teve o cuidado de organizar as informações como data e especificações em nove cadernos.

Recentemente, Ivan Lima teve uma fotografia selecionada para o documentário chamado O Sal da Terra, que retrata a vida e a obra de Sebastião Salgado, fotógrafo brasileiro conhecido mundialmente. O filme foi indicado ao Oscar na categoria Melhor Documentário e foi visto por milhares de expectadores e amantes da fotografia.

Ivan não fotografa mais profissionalmente, hoje em dia faz consultoria financeira, estratégica e amorosa, mas não deixa de lado o seu amor pela arte de desenhar com a luz. Escritor de algumas obras literárias voltadas para a filosofia da imagem, está em processo de lançar uma releitura, agora em cores, do seu livro A Fotografia é a sua Linguagem, lançado em 1988 com mais de 6 mil exemplares vendidos. Viajou pelo mundo, estudou em Paris e hoje em dia reside em sua cidade natal, Petrópolis, no interior do Rio de Janeiro.

Abaixo, a entrevista que ele cuidadosamente cedeu a mim.

MR: O talento para a fotografia é, por experiência pessoal, um aspecto natural ou qualquer indivíduo que se debruce sobre as técnicas consegue fazer fotos de qualidade? Qual a ligação que você faz entre o talento e a técnica?

Ivan Lima: É preciso conhecer não apenas a técnica, mas também a filosofia e a estrutura da ferramenta que estamos usando. No caso específico da fotografia, que foi criada, é necessário conhecer o máximo de como ela existiu, de como se desenvolveu, como ela interferiu na pintura, que era uma forma em imagem consagrada. Há uma diferença entre fazer uma fotografia como uma pessoa comum e fazer fotografias e os seus desdobramentos como um profissional que a enxerga profundamente. E foi isso que sempre fiz e sempre faço. Qualquer indivíduo pode fazer uma, duas ou meia dúzia de fotografias expressivas, mas para ser um bom fotógrafo ou um bom editor de fotografias é preciso fazer pelo menos 300 fotografias espetaculares. Sem isso não é possível ser considerado uma pessoa que está próxima Dela.

Você pergunta sobre talento e técnica. Eu acrescentaria Prática. E mais: colocaria Prática, técnica e talento nesta ordem. Fotografia é uma ação individual, uma espécie de conversa de você com você mesmo, uma conversa do seu ego com a sua essência, uma conversa da sua parte material com a sua parte divina. E você consegue chegar neste patamar quando você entende esses detalhes e outros detalhes que passam a ser só seus, diferenciados. Antes de dez anos de prática é muito difícil lidar bem com a fotografia e tudo começa a ficar claro a partir de quinze anos de prática contínua.

MR: Como foi seu despertar pela fotografia? Foi logo quando jovem, foi um acaso, uma necessidade?

Ivan Lima: Fiz faculdade de arquitetura no Rio de Janeiro e havia um colega no meu atelier que tinha apenas 8 pessoas que fazia fotografia profissional chamado Ricardo Jochen. Ele também fazia documentários. Ele sempre nos mostrava fotografias de colegas que nós lidávamos no dia a dia. Eram as pessoas e ao mesmo tempo eram visões que não conhecíamos daqueles colegas. E eu não entendia como era isso, como ele conseguia isso. Me aproximei muito dele e perguntei tudo que podia, inclusive que câmera ele usava. E fiquei muito próximo dele em fotografia. Comprei os equipamentos que ele me aconselhou e comecei a fazer fotografias. Antes de nós chegarmos ao segundo ano da graduação, que era de 5 ele se suicidou. Foi um choque porque eu senti que ele interrompeu uma carreira que não tinha como não dar certo. Quando me formei mudei para Paris para fazer pós-graduação em urbanismo e fiz já usando fotografia. Comprei equipamentos e fotografei sem parar e fiz doutorado em fotografia. Quando voltei para o Brasil em 1982 já estava tão dentro da fotografia que os próximos 20 anos me dediquei a prática, ensino, pesquisa, publicação de livros sobre a filosofia da fotografia. Isso foi de 1980 até 2000.

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Ivan Lima — Foto  Reprodução

MR: Acredito que você fotografa até hoje. Qual a frequência? O que gosta de fotografar hoje em dia?

Ivan Lima: Fiquei cerca de 12 anos sem fotografar, quando o movimento de filmes passou para a área digital, de 2001 até 2013. E, desde então, não vivo sem dois aparelhos nas mãos. Não saio de casa sem uma câmera e fotografo sem parar. Mas não faço mais fotografias como profissão. Atualmente sou consultor estratégico, amoroso e financeiro e edito livros, preferencialmente de fotografias. No momento estou escrevendo a versão em CORES de A FOTOGRAFIA É A SUA LINGUAGEM com fotografias de dois discípulos, Ricardo Campos e José Lins, que são excelentes fotógrafos.

MR: No processo de seleção de fotos, se tratando de técnicas, você já deixou de publicar alguma por perceber que um elemento não estava de forma correta? Uma linha do horizonte desalinhada, o clássico pé cortado, um borrão?

Ivan Lima: O nome é edição. Editar. Editor. Não publico fotografia se não estiver perfeita. De jeito algum. Fotografo muito e edito pouco. Fotografia é como poesia, você escreve muito e faz poucas poesias. O compositor Tom Jobim tem uma frase que resume isso: “uso mais a borracha do que o lápis para compor as minhas músicas”…

MR: Como foi ser um fotojornalista na prática? E lidar com o deadline de uma redação como a da Folha de São Paulo onde trabalhou?

Ivan Lima: Fui fotógrafo e fui editor de fotografia de jornal. São duas profissões diferentes. Como fotógrafo fazia o que achava que era o melhor e o Editor editava o que ele considerava o publicável. O fotógrafo independente tem que ser um bom editor de seu próprio trabalho. Existe o trabalho profissional que te sustenta e o trabalho de divulgação do seu talento, ou seja, mostrar o que ninguém faz. É preciso fazer os dois para se destacar neste mundo.

MR: E hoje, como você enxerga a profissão do fotógrafo de imprensa? Ainda tem espaço para ele ou a tendência é ver o jornalista fazendo múltiplas funções?

Ivan Lima: Fotografia é uma profissão, é preciso ser profissional.

MR: Sobre o livro A Fotografia é a Sua Linguagem como foi fazer a escolha daquelas imagens?

Ivan Lima: As imagens estão a serviço do texto. É um livro sobre a filosofia de ler uma imagem e lhe dar significado. A edição que está sendo refeita para a terceira edição, porque o livro vendeu 6 mil exemplares em 2 edições, está toda sendo refeita com as minhas fotografias que foram retiradas de 48 mil fotografias que fiz durante 20 anos. É sempre um trabalho exaustivo para só publicar o que pode servir aos leitores. Um respeito sempre presente.

MR: Uma foto vale mais que mil palavras?

Ivan Lima: Não. A escrita é milenar e a fotografia é uma criança diante da escrita. Talvez uma adolescente rebelde.

MR: A selfie, no seu ponto de vista, seria considerada um estilo de fotografia da atualidade ou ela se encaixaria naquela tradicional forma de fotografar, o retrato?

Ivan Lima: A selfie é resultado da fotografia digital, um grande resultado.

MR: ‘’Com uma câmera fotográfica fazemos fotografias e com um celular fazemos uma célula’’. Comente um pouco sobre isso. Como assim?

Ivan Lima: Fotógrafo profissional é o que vive de fotografias. Fotógrafos que vivem de fotografias usam câmeras e os amadores usam celulares. É simplesmente isso. As câmeras são equipamentos para fazer fotografias, os celulares são aparelhos para falar com pessoas. Não é o mesmo. Claro que os fotógrafos profissionais usam celulares, mas não para realizar seus trabalhos. Mas eu sou perfeccionista. Como disse Egberto Gismonte: “Eu não sei tudo, mas o que eu sei eu sei tudo”. Se você, Matheus, quer se destacar, tem que saber tudo do que você se dedica.

MR: Como você descobriu que a tal cobertura, na rua Maria Angélica, no Jardim Botânico, era da cantora Leila Pinheiro? Você encontrou com ela pessoalmente e ligou os pontos?

Ivan Lima: Na época desta fotografia eu vivia na Rua Maria Angélica, Bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro, num apartamento enorme no alto, de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas que via ao longe. Conhecia toda a redondeza e costumava dizer que nem na minha rua eu era o melhor fotógrafo. Do meu lado esquerdo morava o até hoje meu amigo, o grande fotógrafo Luiz Garrido, do outro lado o fotógrafo da moda na música da época, o Cafi. E em frente o Pedro Moraes, Filho do Poeta e Diplomata Vinicius de Moraes. Só era o melhor fotógrafo do meu prédio, porque no meu prédio só eu fotografava. eheheh. Sabia que a Leila morava naquela cobertura, claro, era amigo dela e do Joaquim Ferreira dos Santos que também morava na mesma rua, Débora Colker, ou seja, morava num quarteirão que era cheio de artistas.

De uma forma abusada pedi para que Ivan me mandasse uma imagem. Uma qualquer. Ele simplesmente me enviou essa, a selecionada para o filme de Sebastião Salgado, que na altura do lançamento do documentário lhe rendeu $16 mil reais. Ele diz ter sido ”uma recompensa muito grande”.

ivanlima© 1979.04.06 sebastião salgado, juca e o super homem

Sebastião Salgado retocando as fotografias que havia feito nos Andes. Ao fundo, seu filho Juliano Salgado, com 4 anos de idade, em 1979. Juliano produziu o documentário sobre o trabalho do pai em 2014” Legenda-comentário de Ivan Lima.

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