Crítica | A maré de Karina Braz deságua no mar de Dorival Caymmi

Maré Cheia, o novo disco da artista paratiense Karina Braz é refrescante como um vento no rosto ao fim da tarde. As cinco faixas autorais, muito bem alinhadas e ricas de sentido poético, contam histórias de pescador e nos levam a um mergulho de cabeça num mar de memória e afeto, como cantado no verso da terceira faixa, Luau:Foi na areia do Pontal. Eu vi no seu olhar. A lua estava ali”. Com sonoridade envolvente e tropical, a banda se lança no mercado fonográfico com um trabalho maduro, inédito no cenário regional e muito bem executado.

Dorival Caymmi fez dos mistérios do mar uma de suas principais fontes de inspiração. Conhecido por suas composições cadenciadas e voz grave, cantou com precisão a beleza das águas da Bahia, alertou para o perigos da imensidão e misturou a religiosidade com o samba da sua terra. Caymmi, em sua vasta discografia, trouxe para o grande público a intimidade do interior e evidenciou como ninguém, não só a beleza, mas o cotidiano das pessoas daquele lugar. ”O que é que a baiana tem? Tem graça como ninguém. Como ela requebra bem. ”O pescador deixa que seu filhinho tome jangada e faça o que quiser (…) seu filhinho brinca perto da Lagoa do Abaeté” e ”A vizinha quando passa com seu vestido grená, todo mundo diz que é boa mas como a vizinha não há (…)”. Trechos que confirmam a exaltação desse lugar ímpar, vivido e observado pelo poeta soteropolitano e que muito se parece com a forma de fazer música de Karina Braz.

A faixa que abre o disco e nos convida a ouvir o restante é O Pescador. O efeito de água, abrindo e fechando a música, transmite sensação de liberdade, de relaxamento e nos leva de encontro com a natureza. E um outro destaque, ainda mais agregador, é o uso da flauta de pã. O músico peruano Fernando Vargas, com muita delicadeza, harmoniza e da brilho extra para a faixa. Na composição, a história do pescador se mistura com a rainha do mar, Yemanjá, entidade também muito presente na obra de Dorival. Quem assume com intimidade e tranquilidade os vocais de Maré Cheia, faixa título, é Pablo Piedade. O violino traz o requinte para a sonoridade praieira do álbum e com isso, eleva a qualidade da banda, mostrando muita originalidade. O toque trincado do pandeiro é a memória trazida dos Cirandeiros, grupo musical caiçara de Paraty. Na mosca! Pés No Chão ”nos leva daqui para outro lugar”, parafraseando a própria canção. É envolvente, dançante e conta com a sonoridade das castanholas, dando um ar alá La Isla Bonita, música caliente da Madonna. Lua Serena fecha com um belo solo de violino e de forma quase folclórica nos conta o romance entre a lua e a sereias.

O álbum merece destaque pela singularidade do estilo musical apresentado pelos músicos. A genialidade de unir o mar, a flauta peruana, o violino e as castanholas, numa cidade de interior é, sem dúvida, o ponto alto desse trabalho. A forma como esses elementos se casam, resultam num som nostálgico e de qualidade ímpar. E ainda no âmbito marítimo, uma pororoca às avessas, mares de água salgada num balé harmônico e compassado. Portanto, conclui-se que a maré cheia de Karina Braz deságua no mar de Dorival Caymmi.

Para ouvir faixa a faixa, acesse: MARÉ CHEIA

Karina Braz está nos palcos desde muito cedo. Aos 15 anos começou sua vida pública musical, se apresentando com banda de colégio e em corais. Se apresentou a primeira vez numa casa noturna em Angra dos Reis, litoral do Rio de Janeiro. Ano passado tocou no festival de verão da cidade e esse ano, já com o disco gravado, marcou presença na Off-Flip, evento literário internacional de Paraty. Faz shows em eventos culturais da região e como todo bom músico em ascensão, toca em bares e restaurantes.

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Ficha Técnica:
Vozes e violão – Karina Braz • Contra baixo e backing vocals – Pablo Piedade • Flauta e violinos – Fernando Vargas • Percussões – Jonathan Andreolli • Baterias – Érick Gomes • Teclados – Jorge Sérvulo • Figurino – Christian de Paula • Produção musical – Karina Braz • Gravação – Estúdio América Music • Mixagem e masterização – Jorge Sérvulo • Make e hair – Rodrigo Cardoso • Fotos – Mariana Vergara • Designer gráfico – Rodney Reis • Produção Executiva – Karina Braz e banda • Amiga da banda – Cimar Calixto

Cópia de RAFIQUE NASSER (1)

2 comentários em “Crítica | A maré de Karina Braz deságua no mar de Dorival Caymmi”

    1. Olá Luiz Antônio. É um prazer tê-lo aqui no Mesa22. Karina Braz de fato é uma artista adorável. Sua voz e música são calmas e de ótima qualidade. Farei questão de repassar seu elogio a ela. Obrigado pela visita.

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