O neofascismo venceu: em caso de emergência máscaras de oxigênio cairão automaticamente

Nós tentamos. Fomos às ruas em protesto, gritamos palavras de ordem, mobilizamos um país forte, feminino e progressista. Na memória da história não seremos acusados de apoiadores do neofascismo.

Tentamos de todos os jeitos e maneiras barrar a barbárie mas, corajosamente, não conseguimos. Isso não quer dizer que desistimos, muito pelo contrário, se não nos tirarem a vida, lá estaremos nós, mais uma vez, com inteligência e humanidade lutando contra o mal, que agora vem de cima e ganha força brutal na base civil.

Sentimos o gosto amargo da campanha eleitoral. Mortes, ameaças, pessoas machucadas, agressões e medo. Era isso que a campanha do ex-capitão proporcionava, quando não espalhava mentiras e difamação no whatsapp. Espero que nos livros de história tudo isso seja pontuado: o presidente mentiroso que fugia do debate para ficar repassando fake news em aplicativo de mensagem e que falava aos seus manipulados por intermédio de videoconferência, em um telão. Frouxo, arregão, covarde e canalha seria um ótimo subtítulo. Não há uma vírgula nesse plano de governo que seja louvável e que atenda minimante a pluralidade da população. O Brasil desmemoriado elegeu a própria guilhotina.

Ameaça à democracia

Democraticamente ele disse tais frases, entre muitas outras igualmente imorais: ”O erro da ditadura foi torturar e não matar”,”Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, meu voto é sim”. Você, leitor, tem ideia de quem foi o torturador Brilhante Ustra? Sabe o que ele representa? Somente um ser desgraçado evocaria esse nome em uma homenagem. O filho dele ameaçou o Tribunal Superior Eleitoral, mostrando que o gênio autoritário é de família. Mas não para por aí as ofensas e falta de humanidade desse senhor. Ele disse também: ”Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente (…)”.

A Ditadura militar no Brasil foi instaurada oficialmente em abril de 1964 e durou até março de 1985. Foram 21 anos de repressão e censura que perseguia aquilo que não estava dentro da norma ditatorial vigente. Foram anos de tortura agoniante, como a que sofreu, por exemplo, a militante Amelinha Teles. Ela foi torturada, violentada, humilhada, urinada, vomitada, eletrocutada e exposta, nessas condições, aos filhos de apenas 5 anos. A filha perguntou a ela: ”Por que você ‘tá’ azul e o pai ‘tá’ verde?”, relembra Teles que, por dias, por ser submetida a choques, teve a cor de sua pele alterada. ”Torturaram psicologicamente os meus filhos. Os dois tiveram que fazer tratamento por muito tempo”, concluiu.

O passado é uma herança que não pode se abdicar. Valter Hugo Mãe

Carlos Alberto Brilhante Ustra, judicialmente confirmado como torturador e homenageado pelo Messias, foi o responsável por essa cena que você acabou de imaginar. Somente por trazer a memória desse ser desumano, Bolsonaro deveria ser impugnado e jogado no abismo do ostracismo mas, agora, ele é Presidente da República Federativa do Brasil.

Autocrítica petista

Diversas vezes durante a campanha Haddad e o PT foram encurralados e pressionados a fazerem uma mea-culpa. Mas afinal, o que Fernando Haddad, no alto de sua inteligência e parcimônia, fez de tão grave para que carregasse consigo uma raiva catastrófica? A resposta é simples: absolutamente nada, ou tudo. Em 2016, o verdadeiro vencedor das eleições de 2018 foi eleito o melhor prefeito da América Latina. Em sua passagem pela prefeitura de São Paulo, 2013 a 2017, a cidade mais populosa do país, deixou sua marca e competência. Enquanto ministro da Educação, 2005 a 2012, desempenhou um excelente trabalho. Programa Universidade Para Todos, Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior, o FIES, e o ENEM, que teve reformulação em sua gestão. Alguns exemplos somente para ilustrar. A principal porta de acesso ao ensino superior foi aberta por Fernando Haddad. Atende desde a classe mais pobre, muito grata pela iniciativa, até a classe média, que optou em fechar os olhos para esse fato. ”Eu odeio a classe média” diria a filósofa Marilena Chauí.

Brasil hipócrita

É preciso falar sobre a nobre e patriota sociedade brasileira. Historicamente voltada para o conservadorismo e hipocritamente defensora do progresso, grande parte dos brasileiros e brasileiras, na confirmação pré anunciada da boçalidade tupiniquim, mostraram sem pudor de que lado não estão. Apontaram sem dó a arma na face de todos os LGBTs, tiraram a mínima dignidade que os indígenas, a duras penas, vinham mantendo, colocaram mais ainda a população negra no tronco da segregação, culparam as mulheres pelo simples fato de serem como são e apoderaram, como nunca antes, os homens, dando a eles protagonismo e acesso ”fácil” a armas. A campanha foi um aviso do que pode vir pela frente. Essa mesma sociedade, egoísta e anti ética, no sentido de perceber o erro e mesmo assim apoiar tal comportamento, será a culpada por tudo de sanguinário que será noticiado nos jornais e por colocar, inconsequentemente, a democracia em cheque.

Aquela história de que contra fatos não há argumentos, nessas eleições, não tiveram efeito nenhum. Foi mostrado vídeo, declarações, sequência de nítidos fatos, áudios, fotos e mais fotos. Tudo em vão. Os ”cidadãos de bem” não queriam enxergar a verdade nua e crua e por isso defenderam as próprias mentiras como se as mesmas fossem escritas ou proferidas por Deus. A ignorância por opção e o mau caratismo social tomaram formas alarmantes nesse período eleitoral. E não há o que fazer com esse tipo de mentalidade. ”Eu quero ser ignorante” foi o que uma pessoa me disse. Márcia Tiburi, professora e filósofa, já havia escrito no livro ”Como Conversar com um Fascista” o que se esperar de um analfabeto político e esse tipo de declaração é um exemplo. De pouco importa os fatos. A autoverdade é a que vale. Aquela verdade plantada e cultivada no quintal de casa e que, provavelmente, só tem ali e que também não é verdade.

O ódio partidário cegou as pessoas a ponto delas clamarem por tortura.

Hegemonia x contra-hegemonia

Sempre vão querer achar um culpado. É provável que tenha não só um, mas vários culpados nesse grande imbróglio que se tornou a política brasileira. A grande imprensa também tem culpa nisso. Recentemente, falando na Festa Literária Internacional de Cachoeira, a jornalista Eliane Brum disse o seguinte: ‘‘A imprensa brasileira não aprendeu nada com o golpe de 1964”. Ou seja, mesmo passando por um período extremamente conturbado e perigoso para a profissão, eles hoje atuam quase da mesma forma. A grande imprensa e a mídia em geral colaborou para que o pesadelo se tornasse realidade quando, em vez de pressionar o fascista, batiam nos governos petistas anteriores e adoçavam suas falas opressoras e agressivas. A imprensa errou até quando não disse. O enquadramento da informação pode mudar totalmente uma realidade. E mudou.

A mídia contra hegemônica fez o seu papel com maestria. Logo no começo da campanha, logo depois dele ser preso, o ex-presidente Lula escreveu uma carta aos jornalistas independentes agradecendo pelo empenho que tiveram em levar a verdade, como ela é, aos brasileiros e brasileiras que não se deixam enganar. Esses jornais e meios de comunicação tem conquistado seus leitores e seguidores justamente por tratarem a informação com decência e levarem a notícia com o máximo de credibilidade e apuração ao leitor. Terão trabalho dobrado nos próximos anos, se não forem censurados.

Fernando O Grande

De frente a tudo isso, cabe a nós, defendermos a democracia e fazer oposição rigorosa ao governo. Os anos ”futuros” serão sombrios e deprimentes, mas não podemos deixar se abater. Fernando Haddad fez uma campanha linda e contou com o apoio da nata brasileira. Não há como dizer que perdemos.

Em caso de emergência, talvez não caiam máscaras de oxigênio sobre nossas cabeças. Vamos acreditar e continuar sonhando com um país melhor, ainda que sem nenhuma perspectiva.

MESA22MATHEUSRUFFINO

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