Entrevista | Karina Braz: ”A música transforma o mundo e as pessoas”

Matheus Ruffino entrevista a cantora e compositora Karina Braz

Conquistando espaço no circuito cultural da região, a cantora e compositora Karina Braz trilha sua carreira entre altos e baixos. Sem perder a razão de frente as precariedades que a vida musical coloca quase todos os cantores independentes, ela segue ecoando a sua poesia de forma doce, poética e afinada. Se destaca no cenário artístico local com sua personalidade e qualidade musical, mesmo tendo sua arte limitada por governos e secretários dispostos a cortes e sucateamento da cultura.

Inspirada pelo mar e pela energia que ele proporciona Braz, hoje, desempenha com mais autonomia o seu trabalho autoral, onde coloca em prática as suas composições que falam de amor, vida simples e experiências no litoral. Isso nem sempre foi comum na carreira da artista. Em sua passagem pelo Chama Maré, banda de forró caiçara muito popular em Paraty, se viu novamente limitada, só que dessa vez pelo machismo dos integrantes que optavam em não ouvir as sugestões oferecidas por ela.

Ainda divulgando o primeiro EP solo intitulado ‘’Maré Cheia’’, a compositora vem colhendo elogios e felicitações por onde canta. Em outubro do ano passado teve a felicidade de se apresentar no Aldeia Paratii, projeto que visa a pluralização e a democratização da arte na cidade. Nesse evento também teve a oportunidade de ver todas as cadeiras da sala de artes integradas do Sesc- Paraty ocupadas. Experiência que não pôde sentir no ‘’Viva Verão’’ desse ano.

Karina Braz nos conta em primeira mão como estão os preparativos para o novo trabalho e ainda anuncia o título desse projeto. Empolgada com o que vem acontecendo em sua carreira, apesar dos antigos e atuais problemas políticos, acredita que o novo ano lhe reserva mais trabalho e conquistas. Atenta ao que acontece ao seu redor, percebe que as pessoas de fora, de outras cidades, dão mais valor ao seu trabalho, enquanto alguns paratienses preferem não comparecer a seus shows. Seria recalque?

Em sua casa, tomando café e sentada em meio aos instrumentos, a cantora carinhosamente cedeu essa entrevista.

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Foto: Vittor Ferreira/ Mesa 22

MR: Como foi o primeiro contato com a música? Onde foi?

Karina Braz: Foi em Angra. Eu já cantava, mas que caí na noite mesmo, para me dedicar, foi com 16 anos. Ali eu comecei de verdade e não parei mais. Eu comecei tocando na fanfarra da escola. Ficava cantarolando em casa, inventando minhas músicas, gostava de bater nas coisas para tirar o som e não tinha acesso ao violão porque quem tinha acesso era quem tinha grana. Meus pais sempre me incentivaram, mas eram muito críticos e rígidos.

MR: Quem são as suas referências no cenário musical em geral?

Karina Braz: Daqui do Brasil, Clara Nunes, Amelinha, Elis Regina, Elba Ramalho, essas grandes. Dos mais contemporâneos, Adriana Calcanhotto, Marisa Monte. A propriedade das músicas é o que me desperta. A Adriana mesmo, se expressa tanto no olhar, a Marisa diz tanto nas firulas, Elba com aqueles agudos. A regionalidade, a autenticidade de cada uma que me prende. Já de fora, Beatles, Elvis Presley, Michael Jackson, desde The Jackson 5. Na minha casa era o dia inteiro música na radiola.

MR: São quantos anos de palco?

Karina Braz: Eu tenho 24 anos de estrada, mas eu já cantava desde cedo. Minha infância toda e adolescência eu participei de coral. Mas de palco, 24 anos.

MR: Chama Maré é uma banda muito popular aqui na cidade e região. Você trabalhou com eles. Como foi essa experiência?

Karina Braz: Foi muito legal. Eu fiquei 4 anos no Chama Maré e foi uma experiência muito interessante. Eu não tinha experiência de palco, de show, de banda porque fazia bar. Quando surgiu o convite eu não queria. Recusei várias vezes. Recusei porque estava em outra praia, estava fazendo outra onda.

MR: Como foi trabalhar com os meninos?

Karina Braz: Era uma equipe grande, mas foi legal porque eles tem essa pegada mais autoral e despertou em mim esse lado compositora, porque até então eu não tinha intenção de ter um trabalho autoral. O Chama Maré me ensinou a colocar para fora o sentimento da escrita, me inspirou a escrever. Foi um divisor de águas. Eu saí do cover e passei para o autoral, mas eu não podia expressar as minhas canções lá. As minhas músicas eu apresentava e eles não aprovavam para ser tocada.

MR: É um grupo totalmente masculino. Você acha que eles foram machistas contigo?

Karina Braz: Acredito que eles até tentavam não ser, mas acabaram sendo machistas. Por causa da criação de cada um mesmo. As minhas composições, eu não componho só letra, eu componho a harmonia, os solos e o que eu faço hoje é dirigir meu trabalho que, antes eu não dirigia, não tinha essa autonomia. Então acredito que, numa atitude e outra, eles foram machistas sim.

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Foto: Vittor Ferreira/ Mesa 22

MR: Qual a sua ligação com o tema mar, muito presente em suas composições? Tem a ver com Paraty?

Karina Braz: Eu sou caiçara. Minha banda toda é caiçara. Todos são criados na beira do mar, no litoral. Eu fui criada aqui em Paraty e em Angra dos Reis. Meus pais se dividiram nessas duas cidades e era o tempo inteiro no mar. A brincadeira, o quintal é a praia, correr na areia. Angra e Paraty me inspiram. Eu acredito realmente que tem uma energia e respeito o mar acima de tudo.

MR: Como você enxerga a cultura em Paraty? Como a cidade, mediada por secretários e prefeitos, desenvolve essa pasta importante?

Karina Braz: A cultura da cidade é muito rica, está viva e é diversificada. A prefeitura mantém as festas tradicionais com os shows, abre as portas para o pessoal daqui e de fora. A secretaria de cultura desenvolve seu papel e tem também o apoio do SESC-Paraty, da Casa Azul e outras instituições que organizam outros festivais, mas ainda é muito pouco para a demanda de artistas que temos na cidade. Falo de artistas de modo geral, não só os que estão na música. A prefeitura e as secretarias dão apoio, mas é preciso mais.

MR: Você foi afetada diretamente com essa precariedade na virada do ano. Não se apresentou no ‘’Viva Verão’’ que é um espaço importante para a cultura local. Como foi isso?

Karina Braz: Fui. Não sei o que acontece. Corte de gastos, eles estão sempre fazendo isso, é na saúde, na educação, na cultura, e nessa o marisco se deu mal mais uma vez. Então, no corte de gastos, nossa banda ficou de fora do festival ‘’Viva Verão’, que é voltado para os músicos daqui da cidade, músicos independentes. A estrutura que eu tenho hoje não é comportada no palco que está sendo disponibilizado.

MR: Como você se sentiu?

Karina Braz: Péssima. Era um festival que vinha criando forma. Ele começou em 2013 e veio ganhando força e as bandas estavam se preparando para esse momento. Só que precisamos dos recursos, o cachê dos músicos. A estrutura necessária para gente fazer, não rolou. Nos anos anteriores a estrutura estava boa e esse ano cortaram. O que tem lá é um DJ.

MR: Se você fosse mandar um recado para o prefeito, para os secretários de turismo e cultura, o que diria?

Karina Braz: Eu acho que temos que unir as nossas forças. Acho que temos que andar juntos. As secretarias têm que se comunicar bem, trabalhar juntos. Eu acho que assim fica bom para todo mundo. Concordo que o orçamento tem que ser enxuto, mas não podemos perder a qualidade. Não podemos tirar algo que é extremamente necessário para uma sociedade.

MR: Karina você é muito passional. É comum você ser assim? Sempre calma e tranquila?

Karina Braz: Matheus, eu não sei se sou tão calma assim. Eu tento ser racional.

MR: Como é o seu processo criativo? Você para e consegue escrever ou é preciso vivenciar algo inspirador?

Karina Braz: Tem pouco tempo que eu escrevo. Tem 4 anos que comecei a escrever as minhas músicas. Normalmente eu componho coisas que acontecem comigo, no meu cotidiano, histórias que escuto, coisas que eu vejo. A inspiração vem daí, mas eu não sento e faço uma matemática para escrever uma música, não. Ela vem, ela me toma e eu tento colocar em palavras aquele sentimento. As vezes ela vem em 10 minutos e as vezes eu fico 3 dias, 1 mês. Não é padrão isso

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Foto: Vittor Ferreira/ Mesa 22

MR: Qual a história por trás da música ‘’Luau’’, do seu EP ‘’Maré Cheia’?

Karina Braz: ‘’Luau’’ foi a primeira música que escrevi porque eu estava fazendo shows e queria cantar as minhas letras mas não podia. Aí eu acho que estava guardado dentro de mim essa coisa de querer me expressar. Eu estava na praia do Pontal, num luau, e o pessoal estava dançando em volta da fogueira, numa roda. Uma menina muito bonita estava dançando em minha direção. Eu não tinha bebido nada, então eu fiquei pensando: ‘’não é para mim’’ e o meu amigo dizia: ‘’é para você sim’’. Ela se insinuava para mim, toda linda e não acreditei. Fiquei com aquela imagem na cabeça e quando cheguei em casa eu escrevi a letra. Só aqueles poucos minutos ali na praia. Em 2h a música estava pronta.

MR: Qual o papel da arte num momento como esse que o país está passando? Sabemos que Chico Buarque, Caetano e muitos outros, na época da ditadura, desenvolveram um pensamento intelectual que perdura até os dias de hoje. A música pode mudar alguma coisa atualmente?

Karina Braz: Sim. Nós estamos num momento de transição de regime e para mim é um momento da gente falar de amor e contestar. Com certeza a música é importante nesse momento e como ela chega rápido, é preciso saber o que vai ser dito. Hoje a música não tem censura, você pode cantar o que você quiser e ouvir o que você quiser.

”A música transforma o mundo e as pessoas. Todos querem viver em paz, num mundo de igualdade e a música pode ajudar nisso sim.”

MR: Então para bater de frente com esse projeto de governo que está aí, tem que ser através do amor, afeto e carinho?

Karina Braz: Também. Eu acho que é um conjunto de coisas e a gente tem que ter isso como ser humano. Respeito, amor. Olhar com carinho para as outras pessoas, dar as mãos e se unir. Acho que a gente pode transformar sim. Quando a gente percebe que algo não vai bem, que tá errado, a música é o meio para expressar isso. Para reivindicar. Ninguém solta a mão de ninguém mesmo.

MR: ‘’Maré Cheia’’, seu primeiro EP solo, foi lançado há pouco tempo. Como as pessoas estão recebendo esse trabalho? O que você tem escutado do seu público nas apresentações e shows que faz?

Karina Braz: Muito legal, Matheus. O resultado é tão legal, é muito carinho que a gente recebe. Muitas felicitações. As pessoas tem se identificado. Fui surpreendida no SESC, em outubro, quando vi todas as cadeiras lotadas e as pessoas comentando depois. Só tem acontecido coisas boas.

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Apresentação no Aldeia Paratii, em outubro de 2018. Foto: Marcus Prado/ SESC-Paraty

MR: Como o público de fora te trata e como os paratienses te tratam? Como você percebe isso?

Karina Braz: Olha, sinceramente eu não sei se é porque temos essa diversidade sonora aqui, mas eu vejo, quando a gente toca para um público de fora, que pagam uma entrada para nos assistir, a casa fica lotada. Mas são de fora, não são da cidade. Quando a gente toca na praça por exemplo, que é de graça, os artistas locais, o público paratiense é minoria.

MR: Você acha que o público paratiense é recalcado?

Karina Braz: Sempre tem aquela galera que é recalcada. A gente sente e a gente percebe. Não sei se é a maioria, mas tem com certeza. Nas redes sociais tem uma galera fiel e a gente sabe por ali também. Nas redes sociais, para você ter ideia, nós temos mais gente de fora, que já nos assistiu e quando tem oportunidade voltam para assistir nosso show de novo. Esses interagem mais que o público daqui e é a maioria.

MR: Sua banda é formada por mais 5 músicos. Como eles chegaram até você? Quem são?

Karina Braz: São músicos que já passaram por mim em alguma fase da minha vida de noitada. O Jonathan Andreoli, percussionista, nós nos conhecemos num outro projeto de cover onde éramos um trio. De lá pra cá ele evoluiu muita coisa, já tocou com muita gente boa. E faz parte dos projetos dessa galera também. O Erick Gomes, baterista, gostou do som que a gente fazia no restaurante e ficou com a gente. Com o Pablo Piedade, baixista e voz, a gente conversando um dia na praça sobre projetos e música, nos identificamos e ficamos amigos. Quando eu comecei a escrever minhas músicas, escrevi pensando nele fazendo o contrabaixo e daí o convidei para a banda e ele aceitou imediatamente. O destino trouxe a Irene Locatelli para gente. Ela estava pedindo uma carona um dia, com o violino nas costas e eu estava precisando de um violinista porque estava desfalcada, o nosso violinista tinha ido embora. E a Gisele Pilz, flautista, que faz parte também de uma orquestra e já tinha participado de um projeto com o Jonathan e ele indicou. Ela veio, gostou do nosso trabalho, se identificou e disse: ‘’Vou ficar com vocês’’.

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Fotos: Marcus Prado/ SESC-Paraty

MR: Quais os planos para 2019? Soube que há projeto novo em vista. Como estão os preparativos?

Karina Braz: A gente tá no maior gás de gravar, já estamos em estúdio e estamos gravando mais canções que falam desse nosso mundo caiçara. Não só sobre isso, mas sobre romance, as nossas poesias simples. Ritmos diferentes, ritmos que são de fora, trazidos por esses integrantes da banda. O Jonathan é uruguaio e nos ensinou muitos ritmos naturais de lá. Nesse EP, já posso adiantar que teremos cúmbia. Eu estou muito apaixonada em fazer cúmbia porque tem muito a ver com a nossa lambada. Irene que é da Argentina, que traz essa coisa do tango. Está muito mais latino que o normal.

MR: E o nome do EP?

Karina Braz: A gente está num tempo muito bom. Nós viemos plantando sementinhas durante muito tempo, então são 2 anos me dedicando a esse projeto ‘’Maré Cheia’’. As músicas que não entraram nesse trabalho, algumas, entrarão no novo EP chamado ‘’Tempo’’, que leva esse nome por causa desse tempo de colher esses resultados, que já estamos vendo. O tempo das coisas acontecerem, tempo para tudo, tempo para as realizações, tempo para projetar. A gente quer lançar esse ano ainda, até o final do ano deve sair.

Karina Braz está nas principais redes sociais.

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O EP ”Maré Cheia” está disponível no You Tube. Ouça faixa a faixa aqui.

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