O suave veneno de Nana Caymmi

A essa altura do campeonato você, leitor, já deve estar ciente da entrevista que a intérprete Nana Caymmi concedeu à Folha de S. Paulo. Nesse longo e divertido bate papo a cantora não poupou críticas a quem quer fosse, externou seu pensamento político e mostrou que, apesar dos anos, continua autêntica e sem medo de mostrar quem é. Com pretexto de promover seu mais recente álbum, Nana Caymmi Canta Tito Madi,após 10 anos sem lançar disco novo, a carioca dividiu a opinião dos leitores. A direita levantou a artista como um troféu, não conhecendo nem mesmo seu maior sucesso. Enquanto parte da esquerda desmereceu o trabalho impecável e de grande expressão produzido até hoje. Alguns ousaram até menosprezar o trabalho do pai como forma de deslegitimar o que representa Nana Caymmi.

Relendo a entrevista deu para perceber a autenticidade de uma artista que sempre prezou por essa liberdade nos modos de se expressar. Nana sempre foi desbocada. Ela fez daquele momento oportuno um bate papo de botequim, rico em desprendimentos e livre de formalidades que a MPB de uma forma geral, atualmente, insiste em defender, como se outrora não tivesse colocado os peitos para fora e entoado hino para qualquer alegremente pato. A filha de Dorival, no alto de seus 78 anos, teve que lidar com críticas a vida toda: tanto por ser herdeira de quem é e também por ter uma das personalidades mais odiadas da nata da música popular. Basta procurar na internet para encontrar inúmeras alfinetadas dela em outros artistas nacionais. Elis Regina que diga!

Nana sempre foi desbocada.

E de frente a essa liberdade no discurso, um outro aspecto que chamou atenção e que muitos não levaram em conta é o fato de Nana Caymmi não se omitir. Mesmo contrariando seus colegas da MPB, opositores ferrenhos do atual governo, a intérprete aguentou firme as críticas que, sem dúvidas, apontaram. Como foi o caso das cantoras Mart’nália e Ana Cañas onde, em suas redes sociais, satirizaram e criticaram a confissão política dela. ”Alguém pode mandar Nana Caymmi à merda?” disse a primeira. Diferente de Nana, outras grandes artistas do nosso cenário preferiram o silêncio durante esse período eleitoral. Anitta e Ivete Sangalo, as empregadas da grande indústria, são exemplos. A carioca, num vídeo-desafio sugerido por Daniela Mercury, transpareceu total desconforto ao ter que se manifestar e, na sequência, disse que não era obrigada a dar opiniões políticas. Deixando claro que de nada valeu abrir a boca. Quem garante que a carioca e a baiana apoiaram o candidato petista no segundo turno? A abstenção nos deixa esse eterno questionamento.

”Nunca antes na história” do Twitter se viu falar tanto de uma cantora de bolero e samba-canção. Logo que a entrevista foi disponibilizada na Folha de S. Paulo, ”Nana Caymmi” encabeçou os assuntos mais comentados da rede, gerando aí, mais uma abertura no mar vermelho da polarização. Os direitistas, massa de manobra do atual governo, levantaram a Dama da Canção como um troféu e elegeram a mais nova rainha do reino da ignorância. Não pouparam elogios. Não sabendo eles quem estava à frente dos movimentos contra a censura e a favor da democracia no final dos anos 60. Nana Caymmi, ao apoiar a atual gestão, teve um profundo lapso de burrice. E isso fica claro se olharmos para o passado político-social da artista. Nessa onda nefasta de emergirem-se do chorume que vivem, Nana foi só mais uma. Pertencente da classe média desde muito cedo, experimentadora das melhores oportunidades, transitante dos espaços mais cobiçados e influenciada pelos maiores intelectuais do país, era óbvio que alguma hora da vida isso subiria à cabeça. Faltou a filha de Dorival um pouco de olhar sensível para perceber o que se passa debaixo de sua sacada, no Alto Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro.

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Nana Caymmi entre Gilberto Gil e Caetano Veloso na Passeata dos Cem Mil, em 1968, no Rio de Janeiro. Eles foram chamados por ela, na entrevista à Folha, de comunistas e ”chupadores do pau do Lula” — Foto: Reprodução

No outro lado do mar estavam, portanto, os esquerdistas igualmente extremistas. Não se envergonharam em coloca-la a nível abjeto, sem valor, pobre. Para ofender ainda mais defendiam o pensamento de que ela só chegou aonde chegou por causa do sobrenome, desmerecendo por completo tudo que conquistou por mérito próprio. Outros diziam que se a cantora tivesse morrido de verdade, não faria falta alguma. Mais de 30 discos, unindo os de estúdio e ao vivo, todos desmerecidos e de qualidade questionável, para eles. A esquerda também tem erguido uns perfis que se autoproclamam, palavra do momento, possuidores da verdade universal.

A sobrinha Alice, filha do compositor Danilo Caymmi, se sentiu ofendida com as declarações da tia. Nana disse, nessa mesma entrevista, que achou que a sobrinha seguiria o mesmo caminho dela na música, mas que se decepcionou: ”Achei que Alice ia dar mel, mas não deu” disse. Pela manifestação que fez em seu perfil no Instagram, a também cantora Alice Caymmi deixou transparecer que esse desconforto familiar acontece há anos. Ela escreveu assim: ”Cantar não é nem nunca foi um peso pra mim, cantar me liberta. Porém a que custo consegui chegar até aqui? A custo de muita rejeição e por vezes violência, violência essa que perdura e se estende até a quem não tem nada a ver com isso. Nunca pedi aprovação de ninguém, nunca pedi ajuda, nunca pedi um real, mas decido exigir respeito. Não concordo em nenhuma instância com o que pessoas que compartilham meu sangue pensam e fazem”. No campo familiar, este que lhe escreve prefere não opinar.

O único erro de Nana Caymmi foi não atentar para o país onde vive e que, de forma muito contundente, ajudou a construir no passado. Se tivesse erguido sua cabeça mais para o alto conseguiria, talvez, ter enxergado que a necessidade para o Brasil era outra completamente oposta. Diferente da amiga Maria Bethânia que canta o Brasil e teme por não ter o que cantar daqui para frente, Nana parece se limitar ao mundo elitista do Rio de Janeiro, aos prédios envidraçados da zona sul carioca e ao terreno fértil da bossa-nova.

Nana Caymmi Canta Tito Madi: o mais novo disco da artista

Lançado no primeiro trimestre do ano de 2019, o disco de Nana Caymmi cantando as composições do bossa-novista Tito Madi prometeu alcançar níveis de interesse diferente dos últimos trabalhos. Tendo em vista a quantidade de pessoas que tiveram consciência desse lançamento e também a emergência de um público novo mais reacionário, Nana retorna aos holofotes na mira de muitos críticos. No embalo, ela aproveita para gravar um outro álbum em homenagem a Tom Jobim. O projeto será gravado no Rio de Janeiro e deve ser lançado pelo selo Sesc.

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”Nana Caymmi Canta Tito Madi” é o mais recente disco da Dama da Canção. Sob muitas críticas, a artista retorna aos holofotes dividindo opiniões. — Foto: Lívio Campos/ G1

Nana Caymmi Canta Tito Madi não deixa nada a desejar, ao contrário, continua mostrando que a Dama da Nossa Música segue fazendo o seu melhor, cantando com a mesma potência de antes e agradando gregos e troianos, no caso do país, neofascistas e progressistas (uns nem tanto).

O disco conta com 11 faixas produzidas por José Milton e arranjado pelos músicos Cristóvão Bastos e seu irmão, grande incentivador, Dori Caymmi. Nana vê em Madi uma inspiração e, desde muito tempo, se identifica com o samba-canção do artista paulista. Ela foi influenciada pelo cantor Emílio Santiago a gravar um álbum em homenagem ao músico. Infelizmente o homenageado não pôde ouvir a obra concluída; Tito Madi faleceu no Rio de Janeiro, em 2018, aos 89 anos.

Com sonoridade envolvente e característico da intérprete, as faixas muito bem embaladas e profundamente ricas em sonoridade, acordes e melodias seguem a linearidade dos últimos trabalhos de Nana Caymmi. Mesmo não gravando nada oficial em quase 10 anos, a voz continua potente e certeira como uma foice rumo ao excedente. O casamento entre o jazz, a bossa-nova, o samba-canção — presentes na obra de Tito Madi —, e Nana Caymmi foi o retorno da boa e tradicional música popular brasileira.  E, para além do talento vocal, a desbocada entende de marketing e publicidade. E disso a gente não pode duvidar.

Ouça aqui Nana Caymmi Canta Tito Madi:

 

MESA22MATHEUSRUFFINO

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