Você leu o jornal hoje?

Eu devo desculpas ao Joaquim. Um senhor alto, negro, forte, com uma leve dificuldade para andar e já na casa dos 70 anos de idade. Ele encontrou comigo na rodoviária de Salvador: eu esperando para ir para o aeroporto e ele à espera de seu ônibus com destino ao interior de Minas Gerais. Isso foi no começo de 2018. Joaquim estava em Salvador para visitar alguns parentes e retornava para o seu estado natal sem muitas esperanças. Sozinho, sentou ao meu lado para reclamar do alto preço da marmita que era servida ali no terminal. Dizia que em outro lugar era possível comer em mais quantidade, por bem menos. Até então eu consentia e confirmava sem muito interesse.

Joaquim transparecia ser aquele senhor brejeiro, de vida simples, humilde e que lutou muito para driblar as dificuldades cotidianas. Com sua fala mansa e questionadora conseguiu despertar em mim a vontade de trocar com ele algumas informações. Apesar de estudar comunicação, reconheço que pouco me comunico oralmente. Mas ali, naquele banco da rodoviária de Salvador, o Joaquim me instigou a conversar com ele, me forçou a tentar explicar o que estava acontecendo no país, com seu líder, com a sua história.

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Um dos portões de embarque do Terminal Rodoviário de Salvador. No dia que Joaquim me encontrou estava menos movimentado. Foto: Reprodução

Apesar de toda simplicidade aparente, pessoas como ele sabem muito sobre o universo. Não são letrados na escola de tijolo, mas são pós-doutores em conhecimentos da vida. Noção que muitos estudiosos formados nos melhores colégios não conseguem ter durante os anos. Nessa conversa que, ao todo, durou pouco mais de uma hora Joaquim falou sobre suas inquietações e dúvidas a respeito dos rumos que o país tomaria caso o ex-presidente não conseguisse se candidatar. Assumiu que não estava por dentro das últimas informações sobre política e foi enfático ao me perguntar, não esqueço: ”Você leu o jornal ontem? Você leu o jornal hoje?” tentando confirmar se eu de fato estava apto a dizer o que estava dizendo.

Muitos devem se lembrar de que momento eu e o Joaquim estávamos conversando. Início do ano passado já denunciava o infortúnio que nos acompanharia. Lula era o candidato do PT, não havia outro nome dentro do partido para disputar as eleições daquele ano: Luis Inácio era o mais indicado e o favorito. O então candidato estampava diariamente os jornais com a possibilidade de ter sua candidatura barrada. Muitos não sabiam o que fazer e em quem votar; estávamos perdidos à espera de um milagre que não veio. Era esse o centro de nosso bate-papo. Joaquim sabia que Lula não ia vir como presidente, eu insistia em dizer que sim, que aquela situação seria superada, e que Carmem Lúcia não deixaria o ex-metalúrgico na mão.

Aconteceu o oposto, a ministra e muitos outros empurraram Lula para a cadeia, o impossibilitando de competir uma eleição que já estava ganha, se nos basearmos nas pesquisas de voto. Joaquim sabia disso, dizia o tempo todo me questionando e me obrigando a convencê-lo de que ele estava errado. Ele queria acreditar na minha fala otimista, no meu conhecimento universitário sobre a situação. E eu só dizia o que eu queria acreditar. No fundo eu pensava como o Joaquim, compreendia a emboscada que o presidente estava sendo enfiado. Ele tornava a repetir, dando ênfase: ”Você tem certeza que o Lula vai vir como presidente? Se o ‘Andrade’ vier, não ganha. Ele só tem quatro por cento de apoio”. E eu dizia, ainda convicto: ”Vai vir como presidente. Vai ganhar e vai fazer o povo sorrir de novo.”

Ao lado das matérias que falavam sobre a possível candidatura de Lula estavam as manchetes de seus algozes, esperando que ele caísse do cavalo para poder assumir a liderança. O noticiário não era claro quanto a legitimidade do processo e foi isso que fez a sociedade se sentir perdida, desnorteada perante um mar de acontecimentos e anúncios pouco transparentes. Próximo a eleição, para piorar, a sigla decide lançar Haddad como presidente, Manuela D’Ávila abandonaria a candidatura para se tornar vice do professor e, na melhor das intenções, Lula aparece como uma espécie de vice da vice, algo inédito até então. É possível encontrar o material de campanha que imprimia o rosto dos três. O partido esperou até os últimos instantes para oficializar a real chapa. Nessa altura muitos já sabiam até o resultado das eleições. Havia esperança, mas no fundo, o mal já estava festejando.

Joaquim sabia disso tudo. Ele queria ouvir de uma pessoa estudada aquilo que, no fundo, ele tinha desejo de acreditar. Ele disse em alto e bom som: ”O Lula foi o melhor presidente que esse país já teve” e continuava, ”e olha que eu já passei por vários presidentes, viu? Igual ao Lula não teve”. E eu só podia confirmar a verdade dita por aquele sábio.

”O Lula foi o melhor presidente que esse país já teve.

Aquele senhor alto, forte, com o pé enfaixado se levantou, pegou sua mochila não tão cheia, sua bengala e disse em retirada: ”Vamos esperar o que vai acontecer. Tomara que você esteja certo. Tchau, menino. Vou ali comprar minha marmita de $10. Essa daí tá muito cara.” Eu contente por ter explicado tudo nos mínimos detalhes àquele senhor, por ter deixado ele mais feliz com a minha convicção de que tudo ia dar certo, me despedi e desejei boa viagem, pois ele ia passar inúmeras horas no baculejo do ônibus até chegar em Minas. Faltava algumas horas para iniciar o meu check-in, por isso aguardei na rodoviária esse período. Levantei também, peguei minha mala, esperançoso em tudo que disse, fui para o ponto de taxi e segui minha viagem para o aeroporto.

Adoraria reencontrar o Joaquim e dizer que ele estava certo e me desculpar por não ter sido mais realista na abordagem da minha fala, por não ter dito o que de fato aconteceria. Isso seria possível se eu não estivesse na mesma situação que ele: com medo, debaixo de uma incerteza generalizada e com esperança de que tudo poderia ser diferente. Lula não se candidatou, sofrendo até os dias de hoje uma nítida perseguição política, Haddad vitoriosamente não ganhou, o estudante de Jornalismo aqui se deixou levar pelos próprios anseios e o Joaquim, este guerreiro senhor, tenho para mim que já sabia disso tudo.

Aonde estiver, o meu singelo abraço e minhas afetuosas desculpas. Se a gente for conversar sobre o que se passa no país agora, provável que eu até chore.

MESA22MATHEUSRUFFINO

 

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