Aeroporto é uma viagem

Aeroporto é um lugar estranho. Pelo menos pra mim parece estranho. Nem falo só pelo preço das coisas, como por exemplo um chaveiro simples custar $15 e uma água sem gás $8. O ambiente tem um cheiro diferente, mas não muito. É Lancôme pra lá e Paco Rabanne pra cá. Esse último, pode ter certeza, é você pisar num aeroporto que o cheiro lambe seu nariz. Os banheiros são ótimos e tem sempre alguém limpando e, no lugar de papel para secar as mãos, agora é um vapor que alterna entre quente e frio. Pensando na questão ambiental, acredito que essa opção é mais vantajosa. 

Sobre o que salta aos olhos logo de cara, os figurinos são altamente criativos: quase todo mundo de preto. Se não é totalmente monocolor, é uma blusinha, uma bolsinha ou uma jaquetinha de couro cor de velório. Não posso criticar muito porque sou adepto desse método fúnebre de viajar. Mas há variações sim, não é justo generalizar. O corte das peças, principalmente das mulheres, são alinhadíssimos e os sapatos, quase sempre, pretos. Muitas loiras! No aeroporto tem muita loira. Já os homens, quando não são barrigudos, estão de jeans e vestindo camisa básica. Nas mãos um belo e atualizado iPhone. Muitos homens míopes ou astigmáticos, ou os dois, como é o meu caso.

Muitas loiras! No aeroporto tem muita loira.

Os homens jovens não são tão ”desformes” assim. Brancos, quase todos da mesma cor. Inclusive isso é um dado: muitos brancos frequentam aeroportos. Falaremos desse quesito subliminar mais adiante. Voltando para os jovens, uma característica que chama mais atenção que a brancura: o estilo. A Vans patrocina essa garotada, só pode. Quando não é o tênis, é a camisa, quando não é nem um e nem outro, é o casaco de moletom. Raramente estão lendo livros. Alternam entre o MacBook e o iPhone igual dos pais. Barba! Eles cultivam os pelos faciais fidedignamente. Elas são fechadas, uniformes, algumas bem feitas e outras podres. Mas geralmente estão alinhadas. As meninas de jeans, sapatinho, cabelos longos e loiras. É uma galera estranha, assim como o próprio aeroporto. Parece que foram produzidos numa fábrica da Ford.

Mas tem lugar para todo mundo sentar. Ninguém pode reclamar das cadeiras recém trocadas e espalhadas por todos os cantos. Uma coisa que une cadeira e jovem? Aqueles bastões com tomada que, diferente dos assentos, parece ter somente meia dúzia no aeroporto inteiro. Quando você precisa usar, tem lá uns viciadinhos criando raiz enquanto o iPhone carrega. Outra coisa legal são as atendentes que circulam próximo aos guichês, logo quando entramos. São muito educadas e prestativas. Não sorriem muito, mas até aí tudo bem, né? A gente quer serviço prestado. Mas nem um sorrisinho? No final do expediente estão tontas de tanto Lancôme, coitadas. Guerreiras do povo brasileiro.

Uma vez eu viajei no mesmo voo que a Daniela Mercury. Ela passou pela fila de embarque com a esposa, Malu Verçosa, toda com o cabelo escovado, estatura mediana e com uma altivez do tamanho das coxas da Ivete. Tinha também dois moços com elas, pareciam fazer parte do staff. Logo quando percebi que viajaria no mesmo avião que uma artista como ela, pensei: ”Bom, o avião pelo menos dessa vez não vai cair. Imaginem os noticiários falando do acidente. Na manchete eu seria o ‘e outros’. Ou nem isso. Que tristeza!” Outra vez saiu pelo mesmo portão que eu faria embarque o ex-príncipe da Xuxa, Bernardo Mesquita. Adivinha a roupa dele? Já descrevi ali em cima. O caso mais recente foi no começo desse ano, sentado à minha frente, esperando para embarcar para o Rio, cheio de músicos do lado, rindo e falando sobre o show do dia anterior: Diogo Nogueira. Tá aí uma pessoa que não é nada estranha de perto – muito pelo belo contrário.

Há três tipos de crianças que frequentam aeroporto: as brancas, as chatas e as brancas chatas. Falam demais, perguntam demais, sabem demais, andam demais. No último voo tive o desprazer de estar rodeado delas. À esquerda um menininho, à direita uma menininha que não parava de perguntar e pedir para que a mãe lesse uma bendita folha. Lembro algumas perguntas e falas que ela fez. A garotinha devia ter uns 6 anos: ”Mamãe, mamãe quantas janelas tem o avião? Mamãe, quanto é 44 + 44? Mamãe, mamãe como o piloto dirige no escuro? Mamãe, Petrobrás significa petróleo do Brasil. Mamãe, o que é Gol Conforto? Por que não comprou pra mim?” Até que essa mesma figura solta, para minha profunda infelicidade de estar ao lado dela, a seguinte frase: ”mamãe, to achando que o avião vai cair. To com mau pressentimento.” Quer dizer, além da garota ser irritante, ela era agorenta. Chamei o comissário e pedi, de forma educada, que ele me salvasse. E ele, claro, atendeu as minhas preces. Fui lá para o meio do avião, no silêncio e distante daquela personificação do Enem.

Há três tipos de crianças que frequentam aeroportos: as brancas, as chatas e as brancas chatas.

Mas voltando para a questão racial da coisa, estive reparando nas pessoas ao meu redor. Adivinha quem estava servindo na lanchonete do Bob’s, retirando o lixo e varrendo o chão? No mesmo banco que eu, nenhum negro. Mas nessas atribuições que disse, muitos. Isso não é uma regra. Há, sem dúvidas, pessoas de diferentes cores em ambos os espaços. Crianças negras, ainda que chatas, são raras, e adultos dão para contar nos dedos. Quando a gente fala de oportunidades, racismo estrutural, reparação histórica, nós estamos falando dessa diferença estratosférica em espaços como o aeroporto. Por que eles estão, de forma mais expressiva, nos postos de trabalho e na subserviência? Estamos falando de estrutura, sim, esta que precisa ser modificada e discutida a cada dia. Comecem a reparar no entorno de vocês, principalmente em lugares vistos como privilegiados.

Diferente da rodoviária que todo mundo na fila sabe até da sua quarta geração, tem abertura para trocas de  número de telefone e até indicação de séries da Netflix, na estranheza do aeroporto parece que ninguém se interessa pela pessoa que está ao lado. A comunicação acontece somente entre os familiares. Portanto, um diálogo com um total de zero novidades. A sensação é que cada um é rei do seu próprio castelo interior. Ninguém quer te falar do final da novela ou comentar sobre a nova música daquela mezzo trilíngue. O que mostra um pouco de como esse determinado grupo social percebe as características do mundo ao redor deles: às vezes, não percebendo.

O aeroporto em si, na real, já é uma viagem. Parado, esperando o embarque, é possível presenciar cenas do século passado e também situações super pós-modernas, fluidas, como defende o pensamento sociológico baumaniano, que também não são tão louváveis assim. A estranheza do aeroporto, tenho para mim, está na gente que frequenta. Pensei que estivesse nas idas e vindas de um portão a outro, ou até mesmo no wi-fi aberto que sempre funciona. Funciona mesmo. Sempre. Isso é inacreditável.

Começo a dar mais razão para aquelas definições da Chauí sobre uma tal classe média. E é importante dizer que há exageros nas generalizações.

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