Crítica | ‘Põe-te no meu lugar’: a máscara social

LPTNML - JCP

 

Livro: Põe-te no meu lugar

Autor: Josias Cesar Porto

Ano de lançamento: 2018

Número de páginas: 112

Gênero: Comportamento; autoajuda; desenvolvimento pessoal

 

 

 

‘Põe-te no meu lugar’ expressa em sua narrativa isso que o título sugere: empatia. Mesmo esse conceito aparecendo apenas uma vez no decorrer de toda a escrita. Em linhas bastante gerais, é esse o foco do livro.

O autor, ”psicólogo, empresário, diretor de escola, comerciante, político e até juiz de futebol” – trecho retirado da introdução -, mescla no texto aspectos da vida real, do cotidiano de pessoas que fizeram e fazem parte de sua vida mas também sobe um degrau quando traz elementos e personagens bíblicos, como o caso de Roboão, Martha, Maria, Jó e muitos outros.

Em todos os capítulos o autor retoma e reforça o título e foco central: Você, leitor, põe-te no meu lugar. Sugere, deste modo, que façamos um exercício para compreender o que o outro verdadeiramente é, e fazer qualquer tipo de julgamento a partir daí.

Josias Cesar Porto, ao se colocar como personagem de sua própria construção, se mostra demasiado soberbo e elitista quando, sem nenhuma necessidade narrativa, diz que vive em Copacabana há 18 anos, que a primogênita, ainda no ensino médio, numa cidade no Vale do Paraíba, havia estudado num dos melhores colégios e que ele, sem dúvida alguma, estudou ”na instituição teológica mais conceituada da América Latina”. Não esquecendo ele de citar a localidade desta: ”Mais precisamente no bairro da Tijuca”, zona nobre do Rio de Janeiro.

Para colaborar com as perspectivas acima, logo na apresentação do livro, o amigo e teólogo David Alencar encerra sua exacerbada admiração pelo autor dizendo: ”Como tudo na vida de Josias Cesar Porto, este livro é simples, bonito e gostoso.” Se trocarmos o nome do autor dessa afirmativa pelo jogo de palavras ‘zona sul carioca’, o efeito é o mesmo. O endeusamento dessa parte da cidade é tanta que, por vezes, nos confundimos com o aspecto divino sobrenatural adotado por Porto no decorrer da obra.

As citações musicais são, verdadeiramente, de bom gosto e alinhadas à proposta dos textos — ‘Pérola Negra’, de Luiz Melodia, ‘Rock da Cachorra’, de Eduardo Duzek, ‘Pagu’, de Rita Lee, Lupicínio Rodrigues e Chico Buarque de Hollanda. Estas trazem leveza aos relatos e exemplificam de forma artística o que o autor tenta dizer.

Em um sentido mais vasto, ‘Põe-te no meu lugar’ poderia se tornar mais interessante se as histórias fossem contadas com mais proximidade ao gênero irreverente da crônica e não da autoajuda quase biográfica como o caso, um pouco subliminar, do capítulo ‘Uma vida sob suspeita’ que narra, desde o nascimento, a vida de um personagem chamado Rei, líder de igreja e com fama de namorador.

Hipocrisia, a máscara social

Antes mesmo do resultado das eleições de 2018, eu já defendia a ideia de que o bom jornalismo, sob o poderio do mal, desempenharia um papel de combate. Não combativo no sentido de querer passar por cima, ao contrário, um fazer jornalístico claro e assertivo. Em um país tão destroçado e segmentado como o Brasil, a meu ver, o bom jornalismo tem servido para unificar esses dispersados. Anteriormente, antes disso que está posto, os profissionais da comunicação desenvolviam um papel crítico pontual ao governo e hoje parece que essa mesma crítica é feita com tom de instrução, de modo mais ‘desenhado’, tornando a prática do noticiar algo mais detalhado. Cobra-se dos jornalistas, assim, ainda mais o pilar que sustenta o ofício: objetividade, clareza e precisão.

Teatro
‘Hipocrisia’ é uma palavra originalmente usada para qualificar atores que ocultavam a realidade por trás das máscaras. — Foto: Reprodução

Por causa disso, os jornais tem escancarado a porta da hipocrisia política. O que antes era trazido de forma técnica, atrelado majoritariamente aos fatos, como por exemplo o fatídico impeachment de Dilma que envolvia, nas entrelinhas, as tais pedaladas fiscais, o mensalão, no governo Lula, os vinte centavos mais caros para a democracia do país e, falando de moeda, o Plano Real no governo tucano. Assuntos explorados na raiz do acontecimento, de forma a noticiar aquilo que realmente ocorreu. Atualmente, o campo da subjetividade, do caráter e do jogo cênico da politicagem tem tomado proporções inimagináveis na comunicação — ou vistas no século passado, nos governos de Jânio Quadros (1961) e Fernando Collor de Mello (1990-1992), por exemplo.

Se distanciar da isenção inerente ao bom jornalismo fica cada vez mais difícil, mas ainda é uma ordem.

A saída do ex-ator pornô, Alexandre Frota (ex PSL-SP, agora PSDB-SP), da base aliada do governo ainda tem dado o que falar por muitos fatores. O mais importante dessa celeuma, para ilustrar essa narrativa, está na descrição que o deputado faz ao se tratar do presidente. Trazendo de volta para os que estiveram numa caverna nos últimos anos, Bolsonaro e Frota sempre foram amigos e rasgavam elogios um para o outro nas redes sociais. Em São Paulo, juntamente a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ainda no período eleitoral, ambos foram para a Av. Paulista pedir voto e defender a então candidatura deste nosso presidente. Em vídeo, Bolsonaro afirmou que Frota poderia ser o ministro da Cultura -pasta extinta atualmente-, caso ele viesse ganhar a eleição. Isso só para exemplificar.

‘Hipocrisia’ foi a definição usada por Frota para qualificar as atitudes do presidente. Depois de todo o apoio oferecido por ele, o chefe de Estado, que mais se parece chefe de quadrilha, disse publicamente não conhecer o deputado. Bolsonaro em mais um rompante dos vários que protagoniza durante a semana, se despe da máscara hipócrita que possui. E parece essa, basicamente, a definição literal dessa palavra que Alexandre Frota usou para etiqueta-lo. A hipocrisia é, a meu ver, a falta da verdade, um parente semântico, bem distante, da mentira. O hipócrita mente o que é, muda sua aparência para agradar e julga o outro pelo mesmo erro que faz. Na prática se dizem humildes, mas estão revestidos da pura prepotência e arrogância.

Nicolau Maquiavel, no livro O Príncipe, comenta um pouco mais sobre sua percepção em torno dessa expressão. Ele diz assim:

Os homens em geral formam suas opiniões guiando-se mais pela vista do que pelo tato, pois a todos é dado ver, mas a poucos é dado sentir. Cada qual vê o que parecemos ser, mas poucos sentem o que realmente somos.

Peço licença para tentar traduzir a fala de um dos principais pensadores que marcam o conhecimento mundial. Talvez, de forma mais ampla, o filósofo florentino queira dizer o seguinte. Existem pessoas que criam para si um alter ego, uma segunda persona mais atraente e sórdida para conseguir alcançar os seus desejos. Usam dessa segunda personalidade para lucrar e sair bem na fita. O problema está no interesse sujo inerente a esse modo de agir. Nas sociedades, e isso vem sendo reafirmado há cada ano que passa, a boa imagem tem sido um requisito delimitante para as relações. Estar bem nas aparências, é estar bem com o mundo, como bem explorado no primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, ‘Nosedive’: a personagem não era bem vista pelas pessoas se não tivesse uma boa pontuação no aplicativo de interações. Ou seja, vale mais a aparência, a vida escolhida para ser mostrada. ”A todos é dado o ver, mas a poucos é dado o sentir” e Maquiavel continua: ”Cada qual vê o que parecemos ser, mas poucos sentem o que realmente somos.” É mais fácil fingir aquilo que não se é.

O bom jornalismo tem estado sob diversos ataques e perseguições políticas, mas apesar disso, tem colaborado para tirar dos olhos de muitos a venda que penumbra a capacidade de percepção. A hipocrisia vem daquele colega que admiramos, vem do Presidente da República e daquela pessoa do trabalho que nunca demonstrou falsidade. Esse defeito de caráter também vem de líderes religiosos que usam da fé para se promoverem e que pouco fazem para se colocarem no lugar do outro. Vivem suas tramas de forma indiferente, fingem se importar e agem como atores da peça de ficção que fazem da própria vida. Diferente da empatia, a pessoa hipócrita está interessada somente nela e naquilo que é preciso manter perante uma sociedade vista por ela, muitas vezes, como inferior.

O rei, talvez, sempre esteve nu.

MESA22MATHEUSRUFFINO

 

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