25 anos

Parabéns para mim!

Pensando bem, já estou na metade dos 50 anos. Mesmo faltando outra vida para completar essa idade, pensar nisso me causa algumas inquietudes. Mas não quero falar sobre o futuro, só comecei dessa forma para parecer dramático e exagerado. Inclusive, essas são características que me acompanham no presente. Não pretendo trazer à tona situações corriqueiras acontecidas comigo tempos atrás. Aliás, por falar em passado, nasci sete meses depois do Plano Real e, por azar, vim ao mundo no governo de Itamar Franco, que assumiu o poder após a renúncia de Collor. Nove anos separam o meu nascimento do fim da ditadura militar e, por pouco, não assistia o Figueiredo na televisão. A intenção dessa escrita, talvez, seja reforçar algumas percepções da vida e lembrar de situações inesquecíveis e constrangedoras que me trouxeram até aqui.

Para começo de conversa, já trago minha opinião a respeito de artista com menos de 70 anos que decide fazer biografia. Colega, se tu não for a Anne Frankie, nem se atreva. Essa coisa de falar da própria vida tem tudo para ser um poço de chatice e virada de olhos, como foi o caso do livro criticado na postagem anterior. Às vezes, essa promoção de si mesmo pode dar certo: uns se interessam pela sua vida enquanto outros confirmam a bela bosta que foi. Eu, particularmente, acho mais empolgante quando a história de alguém dá errado em alguma parte do percurso, quando a polícia pede para encostar e solicita de forma educada o documento do veículo. A vida escolhida para estampar as redes sociais é uma parcela muita bem editada e exposta no melhor ângulo. Quem leu a autobiografia da Rita Lee vai entender o que estou querendo dizer. A minha vida pouco se parece com a da rockeira venenosa, mas pode te fazer rir de algum jeito.

Felipe

Ainda no primeiro mandato do governo Lula, por volta de 2004 — e isso não acrescenta em nada à história, vale salientar —, eu tinha um fiel e escudeiro amigo, ele se chamava Felipe e regulava a minha idade, entre dez e onze anos. Este camarada sempre teve um senso de humor mais afinado e afiado que o meu (até um frade celibatário consegue ter, convenhamos). Felipe vivia lá em casa, morava perto e brincávamos com meus irmãos mais novos naquele quintal barrento. Certa vez, decidimos fazer um carro meio imaginário, meio com pedaços de qualquer coisa que tinha num antigo paiol lá perto; o volante do possante era uma tampa de panela velha. Tendo um amigo, uma viagem imaginária e um carro, o que mais falta nesse roteiro escrito pelo Adam Sandler? Isso mesmo, uma mulher. Eu não lembro qual era a virgem desejada pelo Felipe, mas o meu ícone de beleza à época era a Helena Rinaldi. Para mim, era a mulher mais bonita e elegante do Brasil e na minha loucura infantil ela deveria me acompanhar naquele carro dos Flintstones. Mas não acaba por aí, o presente dessa cena icônica acontece agora. O Felipe enrolou um papel qualquer em forma de cigarro e acendeu aquilo, no que pegou fogo e soltou fumaça ele disse alguma coisa engraçada, deu uma tragada e engasgou com aquela bomba. Nessa composição toda, seguida da piada dele, eu não me aguentei de tanto rir e só me lembro de rolar no chão e fazer xixi na roupa. Foi a risada mais líquida que tive na vida. Esse meu amigo que nunca mais falei, atualmente, está casado com uma moça, é evangélico e não tem filhos ainda. Será que naquela época ele já percebia que no futuro eu não ia gostar de Helanas Rinaldis? Aonde estiver, quero agradecê-lo por essa mijada sincera e inesquecível que me proporcionou.

Mãe, Ian e Ana Clara

Bem próximo a esse período da incontinência, agora com meus irmãos — Ian, filho do meio, e Ana Clara, a novinha bolsominion. Nós tínhamos uma ligação muito forte com o Divino e a nossa mãe era aquele tipo de crente Raimundo, um pé na igreja outro no mundo e, de frente a isso, não tinha como a gente fugir do ”chamado”. Sei todas as músicas da Cassiane, Diante do Trono, Aline Barros e de muitas outras crentelhas apoiadoras do Satanás. Imagina, no interior, no meio do mato e tendo a personalidade se moldando naquilo ali, não tinha outra saída. Me lembro que a primeira música que cantei na igreja, já tirado a cantor e filho da líder do coral infantil, foi ‘Venha Comigo’, da fofoqueira Mara Maravilha. Eu até cantei bonitinho, mas estava muito nervoso. Igreja é uma briga de ego horrível. A minha mãe mesmo só queria destaque para ficar no mesmo nível da filha do pastor, que cantava muito bem, mas tinha um gosto duvidoso no quesito figurino. Eu odiava aquela gente rodando e falando como aborígenes australianos. Como disse, eu e meus irmãos, mergulhados nessa religiosidade toda, recebíamos influências diretas. Algumas vezes chamávamos alguns amiguinhos para fazer o tal cultinho. Pense aí, meia dúzia de crianças no meio do nada, prontos para colocarem em prática a encenação que aprendiam na igreja. Muito bem, por vezes, este que vos escreve era consagrado a pastor, mas já tinha briga desde então, porque o meu irmão também queria ser. A gente imitava aquela língua característica de crentes seletos, rodava a baiana e expulsava os demônios mirins. O pior disso tudo era a cobrança do dízimo, que já fazia parte da programação da nossa igrejinha paupérrima. Eu dizia, no microfone armengado: ”Vocês tem que pagar o dízimo pra comprar cadeira. Não tem luz, não tão vendo? A irmã fulana vai passar o saco. É pra Deus.” Que descaração! Com essa brincadeira aprendemos duas coisas: os crentes que idolatrávamos antigamente não passam de pessoas preconceituosas e asquerosas. Outra coisa, a dramatização das minhas ovelhas, por vezes, era mais verdadeira que aquela dos crentes da igreja ”real”. Aos meus irmãos, que apesar da distância e posicionamentos políticos, o meu obrigado por essa história gostosa e que me acompanha até hoje. Ainda sinto vergonha do último voto de vocês.

Carolina

Agora em outro contexto, e acho que ainda era governo Lula, mas já no meio do segundo mandato. Morando com a minha avó, porque sempre tive mais ligação afetiva com ela, minha tia Ana Carolina e a nossa prima Yasmim me aprontaram uma que quase morri. Por muito tempo fui o novinho que ia ao mercado para tudo. Toda criança com menos de treze anos hoje ou as que se identificam com essa condição de empregadinho assalariado com trocos de $0,50 centavos, vão entender a minha fala. Minha prima tirou o dia para visitar a minha tia, até que uma delas teve a ideia demoníaca de me assustar, e pediram que eu fosse ao mercado comprar qualquer coisa. Muito bem, lá fui eu e quando voltei as janelas da casa estavam todas fechadas. O olho já começou a tremer aí, ”ué?’, me perguntava, ”o que aconteceu?” Batia na porta e ninguém atendia. Gritei, esmurrei e aí sim, como uma foragida, a Carolina abriu a porta e me puxou para dentro dizendo que eu não podia falar nada e nem abrir nenhuma janela. O coração, nessa hora, já estava saindo pela boca. Lá dentro, elas me pediam para que falasse baixo e que reparasse pelos vãos da janela se alguém estava rondando a casa. Perguntava o que estava acontecendo, até que a minha tia disse: ”Um assaltante. Ele teve aqui, pediu para gente ficar quietas e disse pra não falar nada ou ele vai matar a gente”. Ah pronto, o que restava de mim acabou ali. E eu tentava entender melhor como havíamos chegado àquela situação. ”Meu deus, só saí pra comprar um óleo. Volto do mercado pra morrer? Nãããão.” A Yasmim e a Carolina, as duas sérias, não deixando escapar em momento algum aquela farsa diziam para eu me esconder atrás da porta, dentro do banheiro e de baixo da cama. Até que ouvimos barulhos no lado de fora, aí acabou de vez. Agradeci a Deus a minha existência até aquele dia e pensei: ”É isso. Vou morrer agora”. O som, na verdade, era uma daquelas filhas da puta batendo em alguma coisa. Mas o fim do enredo é o seguinte: elas me contaram aos risos que tudo não passava de uma brincadeira e que eu era um otário por ter acreditado naquilo. Obviamente que a minha vontade era de matar as duas, mas só tive força para dizer que contaria aquilo tudo para minha avó. Ficou claro que a arquiteta do mal era a minha tia? Ela quem encabeçava aquela cena de horror e medo. Tive pesadelos por algumas noites seguidas, enquanto a mau-caráter dormia o sono dos justos. Obrigado meninas por colocarem numa situação parecida com a que vivem os cariocas.

Bia

Histórias de puberdade e escola rendem um pouco. Aqui e nos próximos subtítulos, vou tentar contar algumas situações dessa época humilhante para a minha geração. O que sou hoje na faculdade pouco difere do tempo de ensino médio e fundamental. Sempre optei pelo caminho do juízo, por tirar boas notas e sentar do meio para frente na sala. Nunca levei suspensão para casa ou advertência, quer dizer, uma única vez eu passei por isso sim. A ignorância da adolescência me envergonha até hoje. Eu estudava com a Bia, essa mocinha era libertária, não se prendia a nada e nem a ninguém. Ela sempre tirava uma notinha medíocre, mas se relacionava com os meninos mais interessantes da escola. Numa briga de pátio, por causa da fila de algo qualquer, chamei essa menina de ‘piranha’ em alto e bom som. E quem passava na hora? O coordenador. ”Pela boca suja e ofensa, suspensão de três dias sr. Matheus”, ele disse. Subi até a diretoria e tentei limpar a minha barra dizendo da minha pregressa ficha limpa. Sem sucesso. O Matheus de 25 anos pede desculpas pela forma desnecessária como aquele Matheus imbecil te tratou, Bia. Desde muito cedo você era autônoma e satisfazia suas vontades. Espero que o futuro tenha lhe reservado um lugar bacana.

Village Fantástico

Nessa mesma escola eu andava em grupinho. O que se repetiu no ensino médio e, atualmente, na faculdade: panelinha nossa de cada dia. O quarteto fantástico era formado por mim, pelo Rafael, Loriane e Allan. Todos, nessa altura da vida, frequentavam igrejas e externavam suas condições heteras de se relacionar. O que para frente foi desmoronado, como as Torres Gêmeas. O Rafael era namorador, muito bom em matemática e com uma letra sofrida de ruim. Lori, como chamávamos a fadinha truck, era assembleiana e só usava saia, na altura namorava um menino. Já o Allan era o engraçado do grupo, tinha uma letra linda e ficávamos competindo para ver qual era a melhor (a dele era mais bonita, ok). Quando eu digo fantástico não é em menção a animação da Marvel, é que, de fato, colocávamos aquela escola para cima, agilizávamos as turmas, éramos requisitados, ou seja, a gente se destacava. Uma vez roubaram uma peça da bicicleta do Leonardo, um bonitinho e popular que mais adiante perderia o dedo pulando a cerca da escola, e acusaram o Rafael, a Loriane e o Allan desse crime. Eu não estava por algum motivo, talvez suspenso por causa da ofensa a Bia? Os pais foram chamados, mas só a mãe do Rafael fez um barraco homérico na direção da escola. O filho dela jamais faria uma coisa daquela. Eles eram meio tirados a classe média. Como de fato, até hoje ninguém sabe quem roubou aquilo. Não era perfil da gente fazer aquele tipo de coisa. Loriane? O quarteto na atualidade continua fantástico, só que agora está mais para Village People, de tão gays. Um dos meninos se converteu ao cristianismo e diz por aí que não pratica mais amores com pessoas do mesmo sexo. Lori é atleta e joga futebol. Soube que ela estava na Europa treinando num time médio. Pessoal, aonde vocês estiveram, quero dizer que a nossa amizade sempre foi muito sincera. A gente poderia ter ajudado um ao outro nesse lance de orientação sexual, mas optamos em tentar nos enquadrar em nosso mundinho limitante — ainda que um de vocês tenha ficado com o menino da bicicleta em algum momento do fundamental. Tudo bem!

Cássia e Nelson

Sempre fui muito ruim em matemática. Juro, se me pedir para subtrair qualquer número, vou implorar por uma calculadora. Coisas básicas eu não sei e não quero aprender. Desde sempre crio bloqueios que me impedem de fazer qualquer operação numérica. Toda minha vida escolar, se tratando de números, passei empurrado e com notas abaixo do abismo. Por causa disso, minha relação com os professores dessa área eram as mais traumáticas, tanto para eles quanto para mim. Lembro da doce Cássia Rangel, minha professora de matemática da oitava série, atual nono ano. Eu esculachei aquela mulher. A raiva que tinha pela minha incapacidade passava toda para ela. Os hormônios pulando por tudo quanto é poro, a depressão gritando, o sentimento de frustração tomando conta, não deu outra. Incompetente, péssima professora e fraca foram os adjetivos nada educados que dei para ela. Essa é uma das poucas coisas que sinto profundo arrependimento. A adolescência, repito, é uma obra pintada pelo Romero Britto. E no ensino médio o caldo engrossou de novo, só que dessa vez foi com o Nelson, um professor já na casa dos cinquenta anos, um pouco grosso e péssimo no ofício. Não entendendo o que ele ensinava, soltei sem querer (querendo) que ele não sabia passar o conteúdo de forma prática. Nisso ele falou para a sala toda que, quem não estava satisfeito, poderia pegar as coisas e ir embora. Pois eu arrumei a minha mochila, olhei bem para a cara dele e disse: ”Pois, então, tchau”. Dei meia volta, desfilei e saí daquele inferno. E adivinha quem precisou fazer recuperação depois? Eu mesmo. O aprendizado que tiro desse segundo caso é o seguinte: não deite para professor nenhum. Ele comeu capim assim como você, a diferença é que agora o dele vem enlatado. Sou defensor da ideia de que professor e aluno são, antes de tudo, parceiros e humanos. E quanto a Cássia, todas as minhas desculpas são poucas. O Matheus de 25 anos perde desculpa por aquelas grosserias.

Dona Eni

Mas vamos amenizar o papo. Eu deveria falar sobre algo engraçado envolvendo a minha avó, mas vou me limitar a comentar um dos momentos mais bonitos e especiais envolvendo nós dois. E aqui, a título de colocação no tempo, estávamos sendo governados pela primeira mulher eleita democraticamente para a Presidência da República. Pois então, fui morar com ela muito cedo e tenho total respeito e amor. Dona Eni é uma senhora que sempre esteve à frente de seu tempo. Mesmo tendo inclinações evangélicas, ela nunca deixou de respeitar e admirar quem quer fosse. Sempre fez questão de prezar pela boa convivência. Prefere dar inúmeros bois para não entrar em nenhuma confusão e stress. No alto dos meus dezessete anos minha avó, sentada numa marquesa de madeira que temos até hoje, perguntou com todas as letras se eu era gay. Foi uma situação muito difícil, porque era tudo muito estranho. Dentro de mim era uma briga diária, então, nessa hora, eu estava muito mais nervoso que ela. Relutei em confirmar, até que ela repete a fatídica pergunta e, por fim, afirmo com todas a letras. Bom, o que aconteceu depois muitos já imaginam: chororô, frases clichês e abraços. Nunca vou esquecer do apoio que tive da minha vó nesse começo de aceitação. Muitos colegas passaram por esse momento, só que alguns tiveram a infelicidade de toparem com pais preconceituosos e intolerantes. Num país majoritariamente conservador católico-cristão, não é tão complicado imaginar o quanto esse processo de ”saída do armário” é doloroso e, muitas vezes, fatal: algo morre, e nem precisa ser alguém necessariamente.

Vittor

Não muito diferente do caso da minha vó, com esse personagem ”de nossos tempos” eu teria inúmeras histórias para contar: tanto inspiradoras quanto traumáticas. Optei pelo equilíbrio, até para ninguém sair mal na fita. Isso foi em Paraty, ano passado, no desgoverno módulo 1 Temer — fato que, mais uma vez, não muda e nem acrescenta à narrativa. Ambos de férias, no início do ano e à procura de alguma programação animadora para agitar a semana. Eu precisava cumprir uma agenda um pouco profissional e não haveria problema nenhum a presença dele no lugar. O convite, inclusive, foi feito para nós dois sob o pretexto de que teria espaço, alimentação garantida e o translado, repare, também estava confirmado. Era em uma ilha de pouco acesso, distante do centro urbano. E antes que pensem em prostituição, informo com pesar que não era isso. O programa (não era prostituição, caro leitor) começou a dar errado desde a saída na rodoviária quando nenhuma das outras pessoas que deveriam estar conosco apareceu. Eu e meu negativismo estávamos a ponto de deixar tudo ali e voltar para casa, mas o personagem ”de nossos tempos” conseguiu me convencer de que eles pegariam o coletivo no meio do caminho, mais adiante. O tempo no dia 26 de janeiro do ano passado estava nublado, quase chovendo e friorento. O acordo dizia para nos encontrarmos numa localidade comum antes do destino final, o que mais uma vez ninguém cumpriu. Nenhum integrante do grupo apareceu de novo. Estávamos perdidos e sem saber o rumo a tomar, mas seguimos na cara e na coragem. A chuvinha fina caindo, o frio batendo no rosto e a pergunta que não calava na minha cabeça era: ”Que porra eu estou fazendo aqui?”. Chegamos ao lugar da embarcação e entramos no bote, somente eu, ele e o barqueiro. Sabíamos que teria algum valor para pagar, mas até então não importava, porque só queríamos chegar ao destino. O mar estava bravo, o bote dava saltos enormes, o barulho daquilo era irritante e, para piorar, ventava forte e chovia. Eu estava possesso de raiva, mas o pior estava por vir. O barqueiro sem nenhum aviso prévio, já chegando na praia, acelerou o barquinho com toda velocidade, o que fez com que chegássemos na areia minimamente assustados e de forma faraônica. Antes disso, só lembro de ter dito: ”se segura, beloved.” Descemos do barco potente e perguntei o valor daquela aventura desnecessária. Ele me respondeu, sem nenhuma vergonha cara: ”$40 reais, $80 para os dois.” O ódio tomou conta do meu ser nesse momento, e o pior era que não podia jogar os demônios na cara do rapaz, visto que eu havia entrado na embarcação sem fazer nenhuma pergunta a respeito de valor. Pagamos a quantia solicitada, mas detalhe, o trajeto até ali durou mais ou menos vinte minutos. Suponho que ele tenha cobrado pela raiva que passei, o que era, verdadeiramente, enorme naquele momento. Por fim, já para encurtar a história, o restante do grupo chegou com a cara mais deslavada do mundo. Quem estava se comunicando comigo pensou que havia me dito da alteração da hora e lugar de encontro. O que faz sentido não ter encontrado ninguém em lugar nenhum. Ainda tem um final surpreendente: eles haviam organizado uma embarcação específica e que cobrava apenas $20 reais por pessoa. Como bom profissional que sou, não mandei ninguém para a casa da caralho, mas a vontade era essa. Superado esse começo, tudo depois foi muito bacana e gostoso. No dia seguinte até saiu um solzinho de leve. O Vittor amou, fez amizades que duram até hoje. O que se tira de aprendizado nisso? Comunicação é a alma do negócio.

Rodrigo

Não tem como me direcionar para o fim dessa narrativa sem trazer algumas situações envolvendo ele, o Rodrigo. Este rapaz mora comigo há dois anos, cursamos a mesma faculdade e dividimos poucas confissões. Poderia ser nenhuma, se ele não fosse tão expansivo e expressivo. Mas não digo isso com indiferença ou pessimismo, apesar das nossas inúmeras oposições ele consegue me entender e eu, às vezes, o entendo também. Uma coisa que não gosto muito é ser fotografado e adivinha o que ele faz? Um documentário de um Matheus inútil, fazendo qualquer trivialidade. Só vejo depois nas marcações do Instagram. Até que tem melhorado nisso e me respeitado mais. Este camarada não assiste nada baixo; não cozinha nada pouco; não ama miseravelmente, mas dança muito. O Rodrigo bate nas paredes e faz barulhos característicos para os nossos vizinhos pensarem que estamos fazendo bobagens. Ele passa o dia assistindo stories de gays engraçados (para ele) e rindo nas alturas. De vez em quando lê Pierre Bourdieu. E quanto fica puto, fica putasso! Esse mesmo cara passa de toalha pela minha porta e diz que vai estar me esperando no quarto dele. Vive jogando na minha cara que não faço nada em casa, que não limpo nada, não organizo e não lavo: bela mentira e exagero, dos inúmeros que tem durante o dia. Eu sou o oposto dele, enquanto ele gosta de muita gente ao redor, eu prefiro estar sozinho. Quando estou nos dias de revolta, não quero ouvir a voz de ninguém, mas o Rodrigo insiste em querer entender o que está se passando comigo. Mesmo sabendo que toda semana tenho uma doideira dessa. Ele já cuidou de mim quando estava febril e com dores no corpo e também me amparou na vez que cheguei em casa de porre e vomitando. Deu opiniões, que nunca segui, para melhorar meu relacionamento frustrado e sempre esteve lá, disposto. Ele é isso: pau para toda obra. Se eu continuar falando em ‘pau’ ele vai soltar alguma piadinha, por isso, é melhor parar. Acho que não vamos mudar, então sigamos assim. Como sempre digo, quando ela fala alguma baixeza: ”Rô-dri-gô”.

Não me imagino fazendo uma publicação dessa a cada quatro anos, como faz a Adele quando está para lançar disco novo. A gente reflete tanto sobre a situação política do país, sobre assuntos acadêmicos e profissionais que esquecemos da nossa própria história, dos personagens que contribuíram para a formação desse sujeito que somos hoje. A intenção aqui foi olhar para o ontem e perceber como estou hoje mas, tentando trazer drama e graça aos relatos. Tudo aconteceu de verdade, e não tenho contato com algumas dessas pessoas há anos, não as vejo há décadas, mas de algum modo elas marcaram a minha vida para sempre. Muitas outras histórias tive que deixar para trás, assim como muitos outros personagens igualmente maravilhosos que circundam minha atualidade. Compreendo que essas memórias são essenciais. Mais adiante, outras vivências serão melhores.

E agora sim a conjuntura política contribui para a narrativa. Hoje é aniversário do Claudinho Galhano, um amigo das redes sociais, e também do incrível cantor e compositor Arnaldo Antunes. Uma sorte dividir essa data com pessoas progressistas, conscientes e que batem de frente, cada um do seu modo, aos desmandos desse desgoverno.

Parafraseando uma música do ex-Titãs: ”A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer.” Então vamos lá, né?

Escrevo muito na tentativa de um dia escrever bem. A ordem da vida é o progresso – ou deveria ser.

MESA22MATHEUSRUFFINO

 

 

 

 

2 comentários em “25 anos”

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