Jornalismo, Moda e Comunicação

É recorrente nas redações e meios de comunicação o pensamento que aponta o jornalismo de moda como sendo um subcampo do jornalismo tradicional, um setor renegado a editoria e desmerecido, ocasionalmente, por companheiros da profissão que atuam em outras especialidades. Os motivos são diversos: se imagina que o jornalista de moda não trabalha pesado, que o objeto de trabalho é de pouca importância para o grande público e que eles não lidam com ‘’pauta quente’’, aquela que demanda certa urgência na apuração e publicação. No campo mais amplo dessa discussão está parte da sociedade munida, igualmente, de discursos que segregam os sentidos da moda. Muitos não enxergam a pluralidade e os efeitos que a moda reflete no campo prático do cotidiano — seja por falta de interesse, seja por não perceber nesse objeto algo rico em valores.

Partindo da discussão em torno da vestimenta enquanto fator de distinção social, trago algumas questões a respeito desse objeto comunicacional tão intrínseco na construção de uma cultura, e que também está atrelado à composição de personalidade individual moldando, de alguma forma, maneiras de se viver. Devemos pensar a moda como uma instituição apoiada fortemente no campo da comunicação e que está enraizada no seio cultural de uma sociedade.

Compreendendo a cultura fashion, deste modo, como instituição comunicacional capacitada a moldar e construir laços sociais, assim como outras instituições amplamente reconhecidas, a moda possibilita o indivíduo a expressar a sua identidade e suas intenções no simples ato de se vestir. Por exemplo, nenhuma pessoa vestiria, independente da classe que pertença, homem ou mulher, uma peça de roupa natural para dias quentes num dia onde os marcadores apontam 5º graus. Assim como alguém não usaria um tailleur Chanel numa manifestação pedindo ajuste de passagem de ônibus. E se assim o faz, por mais estranho que possa parecer, continua a externar uma vontade. A vestimenta é definida, então, com um demarcador de intenções e exteriorização de desejos.

A moda não é estática e nem cíclica, cabe a essa instituição, cotidianamente, a busca pelo novo.

Assim como os jornalistas de política e de economia, setores bastante visados no jornalismo, o jornalista de moda presta serviços aos seus leitores, munidos de alto conhecimento cultural e técnico. Repare: para elaborar críticas, sugestões e editoriais é preciso, no mínimo, estar ciente do que se passa nos desfiles espalhados pelo mundo. E não só, ter noção do que acontece na política do país, estar antenado no mundo da tecnologia e consumir informações que podem contribuir para a elaboração de novas tendências. Isso tudo só para começar. O jornalista de moda não é só clique e close nas redes sociais. É muita mão na massa, testes, trocas e informação!

Remorando um pouco, foi na década de sessenta, aqui no Brasil, que o jornalismo abriu espaço para o mundo do corte e costura. De modo ainda bastante intimista começa a aparecer publicações voltadas para o público feminino, dado o ponta pé inicial pela jornalista Ondina Dantas, na Revista Feminina, que colabora para a expansão de outros exemplares do mesmo nicho, como a revista Joia e Manequim. Mais adiante a vestimenta começa, mais fortemente, a expressar a personalidade de grupos sociais e influenciar a cultura das gerações.

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A jornalista e atriz Marília Gabriela, em 2018, desfilando pela grife de Ronaldo Fraga, na São Paulo Fashion Week. A crítica do estilista foi o rompimento da barragem em Mariana, em Minas Gerais. — Foto: Nelson Almeida/AFP

Pensando nessa demarcação de espaço e tempo das roupas, as décadas passadas foram visivelmente definidas pelas características políticas e socioculturais. Nos anos de 1970, por exemplo, com o crescimento do movimento feminista e a ligação afetiva com a natureza. Janis Joplin é um ótimo exemplo. Mais adiante, passando pela era punk rock dos anos 1980, influenciada pela TV e com o apoio de personalidades famosas como Madonna, Cher e os Beatles. Até que a gente chega nos anos 1990, onde a bandeira hasteada era a da liberdade individual e da oportunidade de escolhas. Tudo valia nessa década: all jeans, xadrez, estampas e muitas cores.

Podemos entender a moda como um objeto que fala sobre uma época, onde contribui e modifica toda uma construção sociocultural. Desse modo, é possível perceber o caráter comunicacional que a vestimenta possui, para além de toda aparência estética e funcional. Já foi o tempo que ela serviu apenas para cobrir o corpo do frio e do calor. A moda já não separa mais, como antigamente, as pessoas pertencentes a classes sociais diferentes: nobres x plebeus.  A moda não é estática e nem cíclica, cabe a essa instituição, cotidianamente, a busca pelo novo.

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Cantora Janis Joplin, ícone fashion da década de setenta. — Foto: Reprodução

Pensando no futuro, o que será que a moda nos reserva? A gente percebe atualmente qual papel ela desenvolveu lá atrás. E daqui alguns anos, o que as nossas roupas dirão da gente? Será que ela vai nos defender e dizer das nossas autonomias ou vai sinalizar que éramos tão difusos que empobrecemos as bases da cultura fashion? Qual será o sentido da moda? O que os nossos corpos, adornados ou não, representará posteriormente? Será que enfim vamos atingir um jeito de se vestir verdadeiramente democrático e inclusivo? A tecnologia entrará nesse processo para contribuir com os novos moldes e formas? O amarrotado se tornará tendência? O jornalista de moda será mundialmente respeitado e remunerado como merece? Fica essas dúvidas para serem retomadas lá na frente, quando alcançarmos Os Jetsons.

Por agora, antes mesmo de nos preocuparmos com o porvir, é interessante entender a vestimenta como uma instituição que deseja externar as suas ambições. Para além disso, ela faz parte e é, ao mesmo tempo, característica cultural de um lugar. A moda é comunicação, ela indica quem você deseja ser. O sociólogo francês Michel Maffesoli conclui da seguinte forma: ”Como apreender o estilo de uma época, se não for através do que se deixa ver?’’

Se mostre.

MESA22MATHEUSRUFFINO

 

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