E sabe escrever?

De imediato, a resposta é sim. Publicitários sabem escrever. Pensar e defender o contrário disso é, no mínimo, um ato de ignorância de quem o faz. Tenho dois amigos publicitários e ambos escrevem muito bem. Uma, inclusive, me ajudou na escrita de um artigo e tem texto publicado em livro.

É preciso falar sobre interpretação, a chave que impediu o entendimento de alguns que compartilharam comigo a fatídica mesa sobre Jornalismo de Dados.

A pergunta que problematiza logo no título está associada a uma manifestação minha, feita durante um debate proposto pela universidade para pensarmos a respeito da pluralidade de informações que o jornalista pode lidar na atividade profissional a fim, claro, de enriquecer as matérias, dinamizar os temas e apurar os fatos. Até aí tudo bem! De fato, é preciso enxergar outras formas de alcançar novos públicos e tornar o jornalismo mais interessante e convidativo, mas não em detrimento do que está posto há milênios. Há, desde então, revisões e aprimoramentos para a área, e isso deve ser tratado dentro do próprio fazer jornalístico, dia após dia, de tempos em tempos. O Messias para os problemas do Jornalismo não deve ser a Publicidade e Propaganda.

No dia do evento havia dois palestrantes para falar sobre a atuação do jornalista contemporâneo no mercado de trabalho. O debate já iniciou controverso. A convidada, assessora de comunicação, trouxe para os ouvintes experiências da carreira e optou por defender um método de trabalho um tanto quanto precarizado e uberizado. Pode se espantar, caro leitor. A proposta sugerida era a que deveríamos saber fazer tudo o que fosse necessário e colocar esse aprendizado na atuação profissional. A tentativa foi de induzir que somente nesses moldes o jornalista é profissional e, por isso, desenvolverá um trabalho efetivo no mercado. Ao tempo que palestrava ali, para uma plateia lotada, ela também geria mídias sociais, revisava textos e conversava com assessores por intermédio do celular. Isso nos prova duas coisas: 1) A personagem em questão vive aquilo que defende de forma prática. 2) Um profissional que tenta desenvolver mil atividades ao mesmo tempo não consegue fazer nada bem feito.

”O texto jornalístico tem que ser interessante”, disse ela. Na oportunidade que a platéia teve, retomei essa máxima e questionei mais detalhadamente: ”O que é um texto jornalístico interessante? Qual a definição básica disso? Para tal, seria preciso usar de adjetivos e abreviações? E a verdade, objeto caro ao campo, pode ser manuseada de modo irresponsável? A resposta foi sucinta: ”O texto jornalístico interessante é o que tem emoção.” Não havia como permanecer naquele espaço sem me incomodar com falas como essa. O problema não está somente na máxima defendida, mas na intenção em normalizar o que foi dito. O ideal é que a emoção fique para a novela, para as opiniões e para os textos literários, enquanto que para o jornalismo, esse sentimento pode ser entendido como consequência, algo que parta do outro e não uma técnica do fazer jornalístico. Quero dizer que não é função do Jornalismo seduzir ou encantar alguém. Para isso, temos as artes.

O Messias para os problemas do Jornalismo não deve ser a Publicidade e Propaganda.

Inquieto com essa e outras falas minimamente desmotivadoras, mas que são pessoais e não posso atacá-las em sua raiz, tento transpor para essa narrativa uma noção que perpasse pelo pensamento de ambos os sujeitos. Desde lá, até hoje, minha intenção nunca foi menosprezar ou diminuir qualquer que seja a opinião, até porque não devo. O debate entre opostos pode propor uma riqueza que, nas trocas de figurinhas entre colegas, às vezes, não acontece. O outro palestrante, enfim, toma as rédeas da mesa e aprofunda o clima crítico do encontro. O foco desse, em linhas gerais, foi colocar o Jornalismo (século XV) como um penduricalho da Publicidade e Propaganda (século XVII). Aí está, portanto, a problemática da pergunta inicial.

Trabalhar na praia e ser, você mesmo, o seu próprio chefe foi a bandeira levantada logo na introdução da segunda parte. Saímos da raia emotiva do ”jornalismo” para desembocar, agora, no coaching. Isso mesmo! Ele havia acabado de chegar da cachoeira e nos questionava se era desse modo que gostaríamos de atuar ou do jeito convencional, onde trabalharíamos horas a fio sob às ordens de um chefe de redação. A parte que lhe cabia era Jornalismo de Dados, esse processo que ainda não tem nome específico mas que vem sendo cotado como um novo método para colher informações em grande escala. Do ponto de vista jornalístico e das realidades brasileiras, um dos maiores absurdos dele, no meu entendimento, foi a defesa de matérias escritas com gráficos e números. Para quem esse palestrante deseja falar? Essa foi uma das perguntas feitas pela platéia e que assino embaixo. Qual tipo de comunicação ele deseja produzir nesses moldes? Jornalista e professor, ele afirmou com todas as letras que o texto, na área, atualmente, é ”secundário”. Se a base da atividade é a escrita e essa, por sua vez, ainda não é feita de forma plena, como ela já não é mais objeto primário? Todas essas inconsistências foram resgatadas em sala de aula, claro! Não eram inquietações somente minhas, mas de um grupo específico: estudantes de Jornalismo.

Saímos da raia emotiva do ”jornalismo” para desembocar, agora, no coaching.

Nessa partidarização publicitária, os diálogos deixavam subentendidos a função social do Jornalismo. Afinal, para que serve essa instituição se a escrita já foi superada, o público receptor é um X e, a partir de agora, os dados serão traduzidos em gráficos coloridos e atraentes?

Durante algumas dinâmicas vindas do palco, veio a provocação: ”Quem aqui sabe escrever em HTML (Hypertext Markup Language)?” Até que um rapaz, publicitário, levantou a mão. A resposta que vinha de quem fez a pergunta foi a seguinte: ”Então você foi contratado.” É perceptível, nessa atitude, a desvalorização do modo secular de se comunicar no jornalismo, ou seja, com textos matematicamente organizados. Sim, porque há hierarquia, valores, ordens, métricas, exclusões, formatos, regras, enquadramentos, ritmos e interesses na construção textual jornalística. Ainda nessa cena surge uma voz após a contratação inútil, perguntando: ”E sabe escrever?”

A interpretação e compreensão desse dia deve se concretizar aqui. De frente ao que foi dito até aquele momento, tendo em mente a última provocação, a pergunta que fiz de modo desengasgado foi em referência ao apoio dado pelo mediador a uma pessoa que escreve em outra língua, para um outro tipo de público e com outros interesses. O profissionalismo do fazer publicitário é um, enquanto o fazer jornalístico preza por outros caminhos. O desconforto surgiu, portanto, perante a miudeza teórica e prática em que foi colocada a complexidade e a responsabilidade do Jornalismo. Quando questiono se o publicitário sabe escrever, é sob essa perspectiva social e de interpretação de realidades; nunca, jamais, em menosprezo ao saber intrínseco desse tipo de comunicação.

A defesa de um professor, que acompanhava as discussões, foi categórica: ”Publicidade é um complemento do Jornalismo.” Ele deu exemplo de um caso reportado pelo Jornal Nacional, onde trazia apenas gráficos, números e que, para além dos dados estarem incorretos, a compreensão geral foi mínima. Isso nos leva a pensar, outra vez, a pergunta feita anteriormente: ”Qual público vai consumir essas informações defendidas por esse palestrante?”. Não deslegitimo o método, como ele pareceu fazer o tempo todo com o jornalismo tradicional. Questiono qual é o público visado por esse modelo, os efeitos na cultura e, também, subentendo que há especificidades nesses ”jornalismos”.

Para além dos desconfortos verbais, proferidos do começo ao fim, houve uma hierarquização conturbada dos valores que envolvem as duas áreas de conhecimento. O profissional deve estar atualizado dos novos formatos, até para não se engessar no tempo, e estabelecer alguns nortes dentro do campo é importante para o fortalecimento das diversas bases que sustentam o Jornalismo. Assim como a Publicidade que tem muitas outras problemáticas éticas para lidar e tentar equacionar. A meu ver, a deontologia de cada área precisa ser preservada. O futuro, nesse caso, poderia ser uma prática do passado: cada um no seu quadrado.

Poderia ser diferente?

Claro que poderia. Falar sobre as experiências profissionais é sempre um ânimo para nós, estudantes, porque conseguimos visualizar, mais ou menos, o que nos espera daqui uns anos. Sabemos que o mercado de trabalho não está tão favorável assim. Redações estão cada vez mais enxutas, salários cada vez mais arrochados e há uma escravidão moderna, onde o profissional precisa dar conta de três ou quatro funções ao mesmo tempo. Infelizmente, isso é muito comum. Qualquer pessoa informada sabe que é assim. Surge, então, o questionamento: Por que a proposta do debate não foi em defesa de uma ação profissional mais digna, mais humana e mais centrada no papel público atrelado a esse ofício? Ao invés da defesa escancarada de um modelo de mercado altamente precarizado e que vende a ilusão de liberdade (seja você mesmo o seu próprio chefe? Sério?). Separar as atividades – Jornalismo e Publicidade -, era a opção mais justa naquela ocasião, porque daí seria possível identificar onde entra um, onde sai outro e onde eles devem se cruzar.

A academia é o lugar para pensar e tentar mudar o mundo de algum jeito. Se nos é informado diariamente que a área jornalística está com problemas, por que não pensar soluções? Alimentar essa forma vigente de atuar, como foi feito pelos colegas, talvez sirva para um bem pessoal, para ficar bem entre os pares e resolver algo imediato. No meu ponto de vista, o verdadeiro jornalismo está interessado em outras coisas, em solucionar e expor outros problemas.

Fofoqueiros de Twitter

Para aqueles que foram para as redes sociais falar mal da minha atuação acadêmica e da simplória fala, aqui defendida, eu sinto muito pelo incômodo. Se a tentativa foi me intimidar ou censurar, caros colegas, falharam miseravelmente. Na próxima vez peguem o microfone, como fiz, e assumam as suas ignorâncias. É um ato muito mais bonito e ético.

Para exemplificar, três tweets básicos que sintetizam esse último entretítulo.

 

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