Agora é para todos

Paraty, no litoral fluminense do Rio de Janeiro, se torna Patrimônio Mundial. A biodiversidade e os povos tradicionais foram critérios essenciais para o reconhecimento concedido pela Unesco

Quem nasce em Paraty é paratiense. Quem visita ou simplesmente conhece por fotos e vídeos é encantado. A cidade que fica a pouco menos de 300 km da capital carioca, desperta atenção de todos que cruzam com ela. Paraty é trifurcação para lugares consideravelmente antagônicos em sua construção. Estando na entrada, bem no trevo de acesso à cidade, é possível enxergar nas sinalizações quais são esses destinos. Angra dos Reis, onde ficam as usinas Angra 1, 2 e 3, cidade mais desenvolvida economicamente e o paradeiro predileto dos famosos globais e internacionais. Cunha é um lugarejo frio, conhecido pelos rodeios e cheio de ladeiras e depressões geográficas, situado a leste de São Paulo. Enquanto a outra paulista, Ubatuba, uma mistura das duas estâncias anteriores, é mais procurada por jovens e surfistas. Diferente das demais, a cidade histórica com cerca de 40 mil habitantes agora, mais do que nunca, é para todos. Desde julho desse ano, quando foi reconhecida como Patrimônio Mundial, numa cerimônia em Baku, no Azerbaijão, Paraty recebe nos seus limites territoriais gente ainda mais diversa: interessados em arquitetura e natureza, praieiros, pessoas de 15 a 90 anos, intelectuais e celebridades de toda ordem.

Mas foram os povos tradicionais do município — 28 comunidades caiçaras, duas terras indígenas e duas comunidades quilombolas — juntamente a vasta biodiversidade, de quase 150 mil hectares preservada por esses cidadãos, os grandes responsáveis por catapultarem o conjunto de belezas ao estrelato.

Artesã do Pouso da Cajaíba
Artesã do Pouso da Cajaíba, zona costeira de Paraty — Foto: Renato Stockler

Até então, na América Latina, não havia patrimônio com características de um sítio misto, ou seja, com interações entre os saberes culturais e as riquezas do meio ambiente. Paraty, portanto, se torna a primeira a ocupar o cargo. Todas as concessões liberadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco), seja no Brasil ou em outras federações, alternam entre belezas mistas, naturais e culturais, como é o caso do Centro Histórico de Salvador, por exemplo, que desde 1985 carrega consigo o título de Patrimônio Mundial por conta do casario de cinco séculos e por ter sido, ainda, a primeira capital do país.

Desse modo e de volta a Paraty, as lideranças políticas da cidade tentavam conquistar o tal título desde 2009. A primeira candidatura tinha como proposta inicial o Centro Histórico com todo charme do conjunto arquitetônico, incluindo o calçamento de pedra com mais de dois séculos de existência, popularmente conhecido como ‘’pé de moleque’’, por parecer a iguaria feita com amendoim. Mesmo sendo exuberante, o centro não foi suficiente. O interesse da Unesco estava em reafirmar a cultura viva que margeia e pulsa em toda baía de Paraty e que vai se adentrando aos povoados e aos ritos de cada costume. O compromisso com a conservação e a preservação desse patrimônio misto já vem sendo trabalhado com a finalidade de fazer jus ao elevado prestígio que o município teve, e também por saber que se não for apresentado relatórios mostrando avanços, a cada quatro anos, o reconhecimento pode ser suspenso. A secretária de cultura do município, Cristina Maseda, diz que Paraty, agora, passa a ser pensada de forma conjunta entre as várias esferas do governo e com participação da sociedade civil. As principais metas do plano de gestão, segundo ela, estão sendo

‘’a realização de todo o sistema de tratamento de esgoto da cidade, o restauro do prédio da Santa Casa das Artes, a revitalização do cais de turismo e, também, a construção do centro de informação criativa, a escola técnica, que será direcionada para a formação de jovens.’’

Na intenção de ser mais um espaço que valoriza os modos de vida, como a Casa da Cultura, localizada no Centro Histórico, o prédio da Santa Casa das Artes, após a reforma, deve funcionar como um centro de referência e interpretação do Patrimônio Mundial. A nova instituição colocará a história da cidade em molduras para que essa mesma narrativa se fortifique e alcance tanto os paratienses quanto os que vem de fora.

Durante o ano inteiro Paraty se mantém como um berço de pluralidade e atrações artísticas, movimentando em todas as raias o desenvolvimento da cadeia econômica e produtiva. Os principais festejos desse município que desemboca do Rio de Janeiro e São Paulo são popularmente democráticos. Logo em janeiro, o réveillon engarrafa uma ponte onde, em dia normal, se atravessa em um minuto caminhando. No carnaval, a mesma coisa. O Centro Histórico e a avenida principal ficam coloridas e festivas. O tradicional Bloco da Lama é um evento espontâneo que surge do mangue da Praia de Jabaquara, e na intenção de se divertirem, os foliões saem pela cidade e acinzentam a festa numa explosão de alegria e cultura. Tem o Fest Juá, um evento esportivo que integra comunidades caiçaras em diversas praias da Reserva Ecológica da Juatinga, unindo os laços e o espírito de coletividade. Os finais de tarde e as noites durante o Bourbon Festival são momentos mágicos. Gêneros musicais como jazz, soul e blues tomam conta das ruas de pé de moleque. Em julho, um dos maiores eventos literários do país e da América do Sul onde, desde 2003, incentiva e fomenta a leitura: a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Todo ano um homenageado. O primeiro foi o poeta Vinícius de Moraes e, esse ano, o escritor Euclides da Cunha, responsável por uma das obras mais antológicas da nossa literatura; ‘’Os Sertões’’, que traz em cena a Guerra dos Canudos, ambientada no interior da Bahia. Tem também o Festival da Cachaça, Cultura e Sabores onde a interação entre os moradores da cidade e os turistas acontece nitidamente.

Walter Craveiro, METROPOLES
Em 2018 a Flip homenageou a escritora Hilda Hilst — Foto: Walter Craveiro

Seja na produção da pinga ou na participação do evento o paratiense é corpo presente. É, sem dúvida, um final de semana bem agitado. Para os amantes da fotografia, em outubro, o Paraty em Foco e sua estrutura imagética irretocável. A culinária criativa também é merecedora do título de Patrimônio Mundial. Passando pela Folia Gastronômica, e chegando aos pratos típicos produzidos nos quilombos e nas comunidades caiçaras, como a tradicional feijoada e o peixe cozido com banana. Esses saberes e sabores próprios conquistados no cotidiano e que passam de geração em geração é o que completa o significado de sítio misto. A paratiense e empresária, Cimar Calixto, entende que as mudanças estruturais na cidade vão acontecer de forma gradativa e que o título abre caminhos e atrai investimentos para os negócios:

‘’É um reconhecimento merecido e que nos enche de orgulho. Temos um conjunto arquitetônico bem preservado, diversidade cultural e natural. O mais importante é que a concessão fortalece o compromisso e a responsabilidade que assumimos em proteger, preservar e conservar esses bens.’’ 

Assim como as tradições e o casario histórico, o mar de Paraty é um convite à parte. Há, basicamente, ilha e praia disponível para cada dia do ano; ao total são 360. Muitas são inacessíveis e preservadas, outras é possível conhecer nos populares passeios de escuna que duram em média seis horas, com saída do cais pesqueiro da cidade. Esse é um tipo de programação que o turista precisa fazer quando estiver por lá. O mar de Paraty também foi cenário para o cinema internacional. Em 2011, a cidade acompanhou de perto algumas cenas da saga Crepúsculo, que foram gravadas no Saco do Mamanguá, o único fiorde brasileiro – grande entrada de mar entre altas montanhas rochosas. Além do vilarejo caiçara que movimenta a renda local com o comércio de pratos típicos e artesanatos, Trindade é um refúgio mundial há tempos, tanto pela exuberância natural quanto por seu apelo hippie e libertário.

Trindade vista de longe.
A popular Praia do Meio, localizada na Trindade — Foto: Adriano Castro, do Blog Viajei Bonito

O nome da tríade mais requisitada da região fluminense é Praia do Cepilho, boa para o surfe, a Praia do Meio e a Piscina Natural do Cachadaço, ambas boas para banho. ‘’O mar, quando quebra na praia, é bonito’’, já cantava o baiano Dorival Caymmi. E ele estava certo, e esse mesmo mar precisa ser respeitado. Durante os últimos anos, conta a professora Carolina Fonseca, o turismo no município vinha perdendo o foco na preservação e se tornando um puro vai e vem predatório. E claro, o risco estava voltado para as populações que moram em algumas dessas áreas de interesse turístico:

‘’Precisamos pensar que tipo de turismo temos vivenciado, principalmente nas duas últimas décadas em nossa cidade, que tem poluído nossas matas, mares e rios. Um turismo predatório, sem planejamento e que tem colocado em risco povos, comunidades tradicionais, pressionando-os a saírem de seus territórios.’’

Ela também sugere como Paraty deve caminhar em defesa dessas culturas, agora, após as portas do mundo se abriram ainda mais. Ela diz:

‘’Olhar para eles. Enxergá-los. E, se unir em suas lutas pela permanência em seus territórios e pela valorização de suas culturas. Há 10 anos o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) luta pelos direitos dos povos indígenas, caiçaras e quilombolas de Ubatuba, Paraty e Angra, mas é preciso um engajamento de toda a população civil para preservá-los e protegê-los.’’ 

Valorizando e protegendo os povos tradicionais, juntamente a biodiversidade, é possível ter um Patrimônio Mundial sustentável e que se preocupa com o presente e projeta um futuro melhor para todos e todas. Trabalhar em parceria com as escolas municipais a fim de introduzir, desde cedo, a importância da preservação do nosso território e da nossa cultura é uma saída importante e necessária.

*A primeira pessoa a ler esse texto, logo quando terminei de escrever, foi a minha mãe. De onde estiver, sei que continuará me apoiando.*

MESA22

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s