As férias acabaram e a praia não chorou

Os meses que a antecederam foram bastante cansativos. Desejá-la nunca foi tão importante. Ainda em novembro era possível sentir o cheiro dela. Os dias alongados, a falta do quê fazer e o bate papo furado na cozinha com a vó eram situações aguardadas. Enquanto passa na televisão o concerto Colour of Your Dreams, da Carole King, vai ficando mais claro que ela veio e se foi. Férias, estar contigo foi muito bom. Com você fiz vários nadas o que, na verdade, era o mais desejado da sua existência. Obrigado pelas horas bem dormidas, por me engordar uns quatro quilos, por me levar para uma turnê médica e, por conta disso, quase morrer psicologicamente. Mente vazia a oficina é de quem? Da falta da razão, claro! Agradeço, sinceramente, pelas ótimas leituras proporcionadas. Viajar, conhecer personalidades, se transportar para outro tempo e aprender novas histórias foi o máximo. É bem verdade que deitado se vai ao longe. E eu fui. Na padaria mesmo fui pouquíssimas vezes.

Não é muito espalhado por aí, mas há diferença entre solidão e solitude. A primeira faz mal para o corpo, mente e pode prejudicar nas relações sociais. O sujeito rejeita a presença do outro por inseguranças, medos, traumas e por conta disso, muitas vezes, é preciso ajuda profissional. Já a segunda, a solitude, é um estado físico e mental autossuficiente. E nada tem a ver com egoísmo ou narcisismo; a pessoa gosta da própria companhia, colaborando com o lado cognitivo e estimulando o autoconhecimento. Para esse último, não ser convidado para um bloquinho de carnaval com milhares de jovens purpurinados, urinando nos cantos da rua e cheirando à morrinha, pode não ser um problema. De modo quase retumbante, ele ainda agradece por não ter sido chamado. O solitário, por sua vez, nega, finge uma dor de cabeça e não sente motivação suficiente para sair da própria bolha.

As férias duraram pouco mais de dois meses. Nesses dias, ao todo, foram lidos seis livros destinados para esse período. Ficar só com os próprios pensamentos e exercitando os poucos neurônios, podendo fazer outras coisas inúteis, foi e é um prazer. Essa é a defesa. Mesmo assim visitei amigos, saí com outros, bebi um pouco, trabalhei, escrevi para um jornal, conversei horas a fio e, por fim, terminei Friends. A praia até teve o azar de me receber por meia hora. Ela nem chorou por ter sido a minha única visita durante esse período; nem se zangou pelo fato de não ter tirado milhares de fotos para as redes sociais. Compreensiva. O que eu fiz com essa tal liberdade, questionou o pagodeiro. Nesse sentido, a liberdade serviu como gancho para terminar as leituras pendentes e curtir as ferias do meu modo.

Como prometido na publicação anterior, Tirando o atraso literário, aqui concluo as críticas e opiniões a respeito dos três livros restantes. Na ordem de leitura, voltamos a falar do colombiano Gabriel García Márquez e o seu ”Do Amor e Outros Demônios”, de 1994, ano onde o autor já estava consagrado como mestre da literatura mundial. Sendo a minha segunda leitura dele, levando em conta alguns aspectos, essa breve narrativa exibe um Gabo prolixo, mais hermético e rebuscando, sem tradução, expressões de sua terra de origem. Quando descreve a parte dos padres e bispos, incluindo Cayetano Delaura, divaga de modo quase desinteressante, retomando o fôlego da história quando vira a chave para detalhar a situação espiritual de Sierva María.

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Tradução: Moacir Werneck de Castro | Editora: Record | Páginas: 197 | Edição: 27ª | NOTA: 9

No começo não era nítido o título desse livro. Não fazia sentido, aparentemente, unir ‘amor’ e ‘demônio’ numa mesma sentença; são mundos opostos e efeitos práticos bem distintos. Ou como se o tal amor fosse, também, um ”sujeito” possuído pelo ”mal”. Sierva Maria e Cayetano Delaura não só mostraram que é possível unir tais expressões, como também viveram a realidade de uma época.

‘Do Amor e outros Demônios’ conta a história não tão apaixonada assim desses dois personagens citados anteriormente; uma marquesinha de 12 anos, renegada pelos pais e inserida numa realidade que não lhe pertencia originalmente, e Cayetano Delaura, um padre menos ortodoxo que os demais daquele período. Delaura tinha 36 anos. Os problemas associados a diferença etária entre os dois não é narrado pelo autor.

A obra se divide em duas partes, sendo a primeira voltada para detalhar características desses pais desnaturados, Dom Ygnacio de Alfaro Y Duenãs e Bernarda Cabrera, a autêntica demônia. Já o segundo momento se volta para o verdadeiro enredo que é a possessão demoníaca de Sierva Maria, a hipótese de ter contraído raiva após a mordida de um cachorro e o amor impossível entre ela e um religioso.

Mais que uma personagem endemoninhada – o que na minha opinião não existia de fato, se não uma resposta ao lugar onde a menina fora aprisionada -, a gente pode pensar a partir do valor que sempre é dado aos saberes e crendices afro-religiosos. Sierva María de Todos Los Ángeles é iniciada nessa liturgia. Ela vive a cultura dos negros e todos os rituais de adoração. O final, claro, é mágico.

Frases marcantes:

”Quanto mais transparente é uma escrita, mas se vê a poesia.”

”Às vezes atribuímos ao demônio certas coisas que não entendemos, sem cuidar que podem ser coisas que não entendemos de Deus.”

”O bispo é a hierarquia máxima – disse Delaura.” ”Não precisa lembrar – retrucou a abadessa, com uma ponta de sarcasmo -. Já sabemos que os senhores são donos de Deus.”

Saber que um dos seus autores prediletos passou pelo seu país é uma alegria diferente. Não sei você, mas eu os coloco num pedestal e todas as mínimas ações podem ser compreendidas como milagres, obras gregas ou pura perfeição. Portanto, imaginar Albert Camus chegando no Rio de Janeiro em 1949 e, logo de cara, saber que ele criticou o cartão postal da cidade chamando-o de ”um imenso e lamentável Cristo luminoso” não tem preço. Camus não era ateu, para ele faltavam evidências práticas que comprovassem a existência de um Deus. Isso pode ser definido como agnosticismo, visão questionadora e filosófica a respeito do possível ser divinal. O ”Diário de Viagem” de Albert Camus foi publicado em 1978, mas as anotações e observações do escritor foram feitas em anos e lugares diferentes: 1946, durante a passagem pela América do Norte, e em 1949, aqui pela América do Sul. É um livro curto, de pensamentos e situações experienciadas durante viagens feitas de navio. Para quem não conhece a literatura desse autor, não indico começar pelo diário. Depois de familiarizado com as principais obras, corra e compre o seu exemplar.

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Tradução: Valéria Rumjanek | Editora: Record | Páginas: 143 | Edição: 7ª | NOTA: 10

Aqui a gente tem um Camus totalmente diferente daquele que conhecemos em seus livros filosóficos. Nesse breve ‘Diário de Viagem’, Albert Camus descreve algumas impressões que teve ao viajar por países da América do Norte e da América do Sul – Estados Unidos, Canadá, Argentina, Brasil, Chile e Uruguai.

Em leve oposição ao ‘Mito de Sísifo’, a ‘Peste’ e ‘O Homem Revoltado’, nessa obra, nosso franco-argelino brinca com a irreverência da ironia, com a graça do humor e da espaço a beleza da poesia, principalmente quando descreve o mar. Mesmo assim, o autor não deixa de nos fazer pensar a respeito do principal problema filosófico: o suicídio. Até ele, nessas idas e vindas e por duas vezes, pensa em se divorciar da vida.

No Brasil, Camus faz a festa. Durante toda a narrativa, o país que ele mais observa e faz comentários interessantes é o nosso. Conhece o Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Bahia e Porto Alegre, onde partiu para o Chile.

Sobre a capital carioca, não tem como deixar de comentar a ida dele a um terreiro de candomblé em Caxias. Albert Camus, numa ”macumba”, em Caxias! Até chegar ao destino final, um terreiro afastado do centro urbano, peregrina por morros escorregadios, ladeiras e tudo isso à noite. Imaginar uma cena dessa coloca os nossos intocáveis na condição de humano, ainda que nos instantes seguintes assumam novamente o trono do imortal.

Na Bahia, ele experimenta um pouco da culinária e diz que estava tão apimentada que ”faria andar paralíticos”. Visita outro terreiro e se encanta por uma moça baiana. Diferente do Rio, na Bahia tudo pareceu mais tranquilo e ritualístico. Ele mesmo se pergunta, no final disso tudo, e se responde: ”Será que sinto vontade de passar alguns anos no Brasil? Não.”

Todas essas viagens foram à base de uma suposta gripe que, na verdade, era o retorno da tuberculose.

Frases marcantes:

Nos Estados Unidos, Nova Iorque:

”E é com as pernas bambas que recebo o primeiro impacto de Nova Iorque. À primeira vista horrenda e desumana.”

”Quem tem razão é quem nunca matou. Portanto, não poder ser Deus.”

Em direção ao Brasil:

”Ou esta solidão sem supérfluo ou a tempestade do amor, nada mais me interessa no mundo.”

Em Montevidéu, no Uruguai:

”É o inferno, de certa forma, esta depressão. Se as pessoas que me recebem aqui sentissem o esforço que faço para parecer normal, fariam ao menos o esforço de um sorriso.”

Durante a 9ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira, a Flica, passando pela livraria da feira, o nome dessa autora chamou mais a minha atenção do que o título do livro em si. Cheguei a pegar um exemplar e folhear rapidamente. Não comprei, a princípio, por nunca ter escutado falar sobre ela, mas sim sobre o primo, Salvador Allende. Publicado em 1982, ”A Casa dos Espíritos”, da chilena Isabel Allende, é um sucesso literário atemporal. É a principal obra da autora, um dos mais vendidos e ainda conta com uma adaptação para o cinema estrelado por Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Antonio Banderas e Jeremy Irons. Se o García Marquez é considerado um dos pais do realismo mágico, sem dúvida alguma cá está a mãe desse movimento artístico. Allende abusa do aspecto fantástico em sua construção textual, mas não falta, em momento algum, o caráter humano e palpável nos personagens. A literatura dessa autora está sendo o melhor presente de 2020.

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Tradução: Carlos Martins Pereira | Editora: Bertrand Brasil | Páginas: 446 | Edição: 47ª | NOTA: 10

Já disse em alguns lugares e li outros dizerem o mesmo. Aqui, nessa obra, a autora constrói uma história incansável. A riqueza de fatos, alinhado aos inúmeros personagens, fazem desse livro um labirinto prazeroso do começo ao fim. O tempo é outro marco nessa narrativa: são, no mínimo, 3 gerações contadas com a mesma precisão e sentido. Ela narra o presente, relembra o passado e avisa sobre o futuro. Como numa boa novela, o mocinho e a mocinha protagonizam quase todos os cenários; quando não dividem atenção com a magia dos espíritos e o ódio de um vilão inquebrável. 

Estamos falando de Clara del Valle, a doce e lunática matriarca, Esteban Trueba, a personificação do machismo, Blanca del Valle, filha do casal, e Pedro Terceiro Garcia, o socialista odiado por Esteban, político conservador, e amado pela Blanca. Essa é a maravilhosa equação criada por Allende.

O livro conta com muitos outros personagens como Férula, a irmã um pouco lésbica de Esteban, o conde Jean de Satigny, o charlatão, e alguns outros familiares. O estilo mágico, bastante popular na escrita do colombiano Gabo, é posto ao quadrado em ‘’A Casa dos Espíritos’’. A história abusa do irreal e nos faz viajar no cenário ora de paz, ora de inferno; terra e céu.

A escritora é nascida no Peru, mas tem nacionalidade chilena. Para quem associou o sobrenome dela a de um outro político, sim, ela é prima do ex-presidente deposto Salvador Allende. No começo dos anos 70, por intermédio de um golpe, Augusto Pinochet liderou um regime ditatorial no Chile. Portanto, a ficção mágica e os fatos reais se misturam na vida da autora.

Como sugerido acima, para quem quiser, existe o filme rodado no início dos anos 90, com atores norte-americanos. O enredo da trama se interessa pela vida política do Chile, antes da ditadura. Não é rico em detalhes como o livro, mas vale à pena.

A solitude, ou seja, o prazer em estar consigo mesmo me trouxe até aqui. As férias acabaram, a rotina acadêmica e doméstica batem à porta. Vou atendê-las com o melhor humor — farei um esforço para tal. Como já foi dito anteriormente, cada um interpreta as histórias de um jeito. Cada um, com o próprio reportório, traduz melhor cada autor e aventura. Mas chega de me estender. O recado já foi dado. No âmbito familiar, a virada do ano foi realmente triste, mas em compensação, descansei e tirei o atraso literário.

Façamos da literatura um hábito. Assim como tomar banho, que exige repetição diária, a leitura funciona no mesmo molde. Não esqueça disso. Aos que já fazem do ato de ler uma atividade cotidiana, sigamos.

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