Somos uma aldeia

O que poderia ser mais letal que o governo Bolsonaro? O governo Bolsonaro sob efeito de uma pandemia. Coronavírus é o assunto do mundo e combatê-lo tem sido a principal política adotada pelos chefes de Estado. Alguns países estão fechando as fronteiras, outros sugerem isolamento compulsório e o Brasil adota medidas para punir aqueles que aproveitam o momento para fazer social e ir à praia. Por outro lado, numa ótica humanista e compreensiva, nossa pátria amada também acha decente aumentar o preço dos produtos relacionados ao combate do vírus. Não obstante, o presidente do país chancela manifestações pró-governo desrespeitando ordens médicas e instruções dos seus próprios ministros. Para ele, a covid-19 não passa de uma ‘histeria’ propagada pela mídia e que todo esse estrago é um plano maquiavélico do governo chinês. O que circula na internet é o boato de que ele testou negativo para a presidência.

Tudo isso porque ainda estamos em março. Quem chegar em dezembro com a saúde intacta, pode se considerar o vencedor. Em janeiro desse ano, para dar boas vindas a 2020, quase entramos numa terceira guerra mundial protagonizada pelos Estados Unidos e Irã. Donald Trump, o totem laranja ocupante da cadeira presidencial do principal país do mundo, se achou no direito de atacar o país dos outros sem pensar nas vítimas e no desenrolar político da atitude. Pelo menos desse enrosco o mundo se safou, mas foi por pouco. As eleições presidenciais americanas acontecem em novembro desse ano e a disputa promete ser faiscante. Por conta da péssima condução no combate a pandemia, Trump vem acompanhando a própria popularidade despencar. Na outra ponta, Biden precisa lidar com a matemática étnica — tanto a branca conservadora, infeliz com o governo, quanto a preta progressista, ala importante para os Democratas.

Dos últimos anos para cá, presidentes espalhados por todo planeta se acham donos dos países que governam, e tratam seus mandatos e governados como instrumentos para satisfação dos próprios prazeres — bélicos, sociopáticos e esquizofrênicos. Olhando para o retrovisor da história, a política possui esse caráter cíclico e, de anos em anos, esses sujeitos aparecem com discurso de salvadores da pátria, protetores da família e detentores da pura e bela moral. Destaca-se que (quase) tudo isso vem acontecendo nas fuças da democracia, esse regime do bem, puritano e sem maldade no coração. Já se lê por aí as expressões ”golpe democrático”, ”democradura” e ”ditadura da democracia”. É assim que as democracias morrem, quando personagens como esses enfraquecem os pilares que dão sustentabilidade à civilização, corrompem os direitos básicos da humanidade e, nesse estica e puxa do poder, acabam dando margem para a barbárie ocupar lugar.

Cabendo a possibilidade de personificar a democracia brasileira, ela seria uma mulher próxima dos 40 anos, com vícios alcoólicos, que toma ritalina duas vezes por semana, fumante e, de quebra, entorna meia garrafa de café a cada três horas. A própria Rê Bordosa, aquela personagem criada nos de 1980 pelo chargista Angeli. Pensando bem, não tem como ser diferente disso que foi descrito: o mundo é uma incógnita política, sempre que pode aplaude e crucifica os mesmos déspotas. A diferença é que a Rê, pelo menos, transava. No Brasil de hoje até essa prática foi limitada. O que fica disso tudo? Temos um regime novo, mas cheio de vícios e traumas.

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Rê Bordosa era alcoólatra, ninfomaníaca, sem ”bons modos” e desbocada. Ela surgiu em 1984 e o criador decidiu matá-la em 1987 – Foto: Reprodução

Se olharmos toda essa movimentação mundial sob uma perspectiva macro e abrangente, é possível perceber que ela pode ser enfrentada de frente se os governantes agirem com responsabilidade e inteligência. Não digo, com isso, que não haverá vítimas; o número pode ser muito menor. É o caso da Alemanha, Nova Zelândia, Portugal entre outros. As lideranças políticas da China, país que originou a atual pandemia, serve como exemplo para pensarmos o papel de um governo justo e assertivo frente à crises. Para conter a catástrofe que se anunciava, eles tomaram as seguintes medidas: isolamento imediato do epicentro da doença; suspensão dos serviços de transporte pessoais dentro de condomínios e universidades; proibição da entrada de não condôminos em conjuntos habitacionais; suspensão e redução dos serviços de entrega; regras claras de quarentena geral e pessoal; controle rigoroso de voos; checagem de temperatura em todos os estabelecimentos públicos; suspensão imediata das atividades acadêmicas; desenvolvimento de novos sistemas de controle via WeChat e uso de máscaras desde o início. A China nesse exato momento colhe os benefícios dessas atitudes, enquanto a Itália, que não acreditou no poder mortal do vírus, amarga a cada hora que passa.

Se o governo Bolsonaro já não estava bem antes, agora a situação parece ficar cada vez mais crítica. Temos um líder anticiência, ignorante, contra tudo que envolve o livre pensamento e cético. Estamos sob o poderio do mal (informado), como disse no meu primeiro texto de 2019, na expectativa infeliz da nova gestão. O modo como ele conduz o país é assustadoramente repugnante e a sua atuação no Palácio do Planalto, para além de decorativa, envenena a nação brasileira. O Ministro da Saúde, Luíz Henrique Mandetta, para espanto da ala mais crítica do bolsonarismo, tem desenvolvido um trabalho inquestionável frente à pasta. Mandetta tem falas objetivas e orienta com clareza o que deve ser feito para amenizar a propagação do coronavírus. Durante as diversas entrevistas que participa, o ministro tem se mostrado firme e contundente, e já alertou que o cuidado com crianças e idosos deve ser redobrado. O Presidente, por sua vez, começa a desqualificar o trabalho desse profissional, claro.

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Cuidar de você é, também, cuidar do outro – Foto: UOL – STR/AFP

Ou o brasileiro fica otimista, ou ele acompanha as notícias. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo não traz nenhuma tranquilidade. O jornalismo nacional tem dado conta de levar à população brasileira o máximo de informação possível. A Rede Globo teve a programação totalmente modificada para cobrir, com detalhes, os efeitos da covid-19. A Folha de São Paulo atualiza suas manchetes a cada meia hora, também com a intenção de levar a todos os pormenores da crise sanitária que pede atenção de diversos países. O jornal, inclusive, se tratando do vírus, liberou o acesso para não assinantes. A recém-nascida CNN Brasil está ao vivo o dia todo mostrando imagens daqui e do mundo, tecendo comentários e convidando especialistas para debater os impactos na economia e nas sociedades. Ou seja, o jornalismo mostrando qual é, clara e incansavelmente, qual é a tal função social. Ainda que seja atacado constantemente por governos autoritários, a instituição ainda é um pilar de extrema importância em momentos como esse.

Mesmo com toda cobertura jornalística, intensificada a cada dia, parte dos nossos concidadãos parecem pagar para ver, como diz o ditado. Talvez inflados pela indiferença vinda de cima, no começo da semana alguns se deram o luxo de se aglomerarem pelos grandes centros. Por outro lado, muitos ainda optam pelo isolamento social e percebem nisso a única forma para vencer o vírus enquanto parte expressiva dos brasileiros só vão compreender a triste situação quando alguém próximo for parar numa das valas cavadas pelos governos estaduais.

E por falar em internet, nas redes sociais começam a surgir hashtags pedindo a saída do Presidente da República, panelaços com gritos de ordem e, para completar, chegou à Câmara dos Deputados o primeiro pedido de impeachment contra Bolsonaro. Ao que parece, a sociedade está despertando do surto que estava imersa — pena que durante outro surto. Nunca é tarde para reconhecer um erro, principalmente vindo da classe média. Segundo informações veiculadas por diversos meios de comunicação, na noite do dia 17 de março, o governo pediu ao Congresso reconhecimento de calamidade pública, com duração estendida até 31 de dezembro de 2020. Com a medida, será possível elevar gastos públicos com a saúde do país, viabilizando compras e investimentos massivos na área.

Se fosse possível premiar algo ou alguém nessa conjuntura, o título de melhor comprometimento com a humanidade iria para: governos inteligentes e preocupados com o bem da soberania nacional e, consequentemente, com o globalismo; jornalismo cumpridor da legítima função social e, sem dúvida alguma, para todos os brasileiros e brasileiras com espírito cooperativo e mentalidade globalizada. Somente nesses moldes de cooperação compartilhada é que vamos conseguir contornar toda essa crise que leva, diariamente, inúmeros brasileiros para o abismo. De pensamentos egoístas e sectários, já basta os desses presidentes inumanos e com definições reducionistas acerca do real significado de nacionalismo.

Já que não temos o Lula e o Obama na presidência do Brasil e dos Estados Unidos, assim como na crise financeira em 2008, vamos reconstruir nós mesmos a aldeia global que nunca deveríamos ter abandonado. Renovar e cobrar engajamento da classe política é uma ordem atemporal. O movimento Ninguém Solta a Mão de Ninguém precisa ser entendido como uma prática eterna, ou até enquanto durarmos sobre esse solo que parece dar sinais de seu fim —  não só físico, mas ético e moral.

2 comentários em “Somos uma aldeia”

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