Conto | Foi você

Desejar a morte de alguém, seja quem for, nunca será a melhor opção para a manutenção da civilidade. Pensando nisso, decidi dar vida a esses personagens complexos em suas relações e convívios sociais. Eles não existem no mesmo plano onde eu e você estamos, são ficcionais e reforçar isso é importante. Em quase oposição a essa perspectiva, o mundo real tem atravessado um momento complicado e devastador. A pandemia do coronavírus mudou a rotina de muitos seres humanos, alterou a rota de grande parte dos animais e até acordou vulcões adormecidos há anos. Mesmo com essas inúmeras mudanças, alguns personagens reais espalhados pelo globo optaram pela continuidade do habitual – maldade, egoísmo, psicopatia -, sem atentar para os malefícios disso sobrepostos à crise. Esses sujeitos poderosos, em diferentes níveis, acabam se tornando, incansavelmente, aliados desse vírus. ”E daí?”

O que resta para a massa consciente, verdadeiramente preocupada, é a revolta e a indignação contra esses que podem ajudar a salvar vidas mas, como projeto pessoal, optam pela morte. Nesse cenário há muitos culpados, nesse outro paralelo, apesar da brutalidade, não há.

Em relação ao conto, ele será publicado em quatro partes de tamanhos aproximadamente iguais, durante os próximos dias. A ideia desse desmembramento veio de uma amiga especial, sugerindo que, nesse modelo, o leitor conseguirá dar conta integralmente da narrativa sem precisar passar muito tempo frente a tela. Nunca havia me aventurado a construir uma história com enredo, personagens e final impactante. O formato literário escolhido, ou seja, o conto, é totalmente novo aqui no blog e também para mim, enquanto ”escritor” . A título de curiosidade, os processos de escrita e criação não foram tão complexos, o cansaço surgiu durante a edição e revisão.

Antes de apresentar a primeira parte, essa criação textual, agora intitulada ‘Foi você’, ia ter os seguintes títulos:

Castigo do crime | Sem pecado, sem culpa | Ficção do real | Fake news 

Perfume amadeirado | Desejo coletivo | Metáfora do inexistente | Foi você, fui eu

 
O modelo de escrita, repetido e com sentenças curtas, é uma opção pessoal para dar dinamismo aos personagens intelectualmente limitados e que nos fazem, por vezes, pensarem por eles. 

*

PARTE 1
Belizário Silva era um homem insolente. Nada feito por ele era bom para mais de duas pessoas. Sua relação com os outros era sempre mediada por gritos e falta de educação. Os vizinhos de Belizário não suportavam a presença dele nos cômodos sociais do conjunto onde moravam. Quando o viam distante, faziam questão de dar a volta por outro canto. Sentiam de longe o odor de sua alma estragada. Ele não tinha amigos, os mais próximos dele agiam socialmente de maneira parecida; desumanamente, egoistamente e pobremente. Belizário era pobre de espírito. A vocação natural era ser intragável e desinteressante. Sempre foi desonesto com a própria condição de estar no mundo, visto que viver era uma palavra muito nobre para ser direcionada a ele. Ele não vivia; Belizário atrapalhava a existência humana com sua presença incômoda. Desde muito jovem agia assim, sem muitas cordialidades, o verdadeiro homem incordial. Com pouco mais de cinquenta anos, era dono de uma grande loja de variedades onde três de seus cinco filhos trabalhavam. Belizário, mesmo com todos esses trejeitos desgraciosos, conseguiu se casar e formar família. Fábio Silva era o mais velho, trabalhava na loja do pai há mais tempo. Antônio Silva, o predileto do patriarca, tinha destaque na empresa. Washington Silva era o novato, contava com muitos relacionamentos amorosos frustrados devido ao próprio histórico. Marcos e Tereza Silva eram jovens adolescentes. Ainda estavam sendo moldados pelas grosserias do entorno. Belizário teve muitos casamentos e todos os filhos eram de matrimônios distintos. Alguns boatos de trabalho, o verdadeiro recursos humanos de uma empresa, davam a entender que a atual esposa o tinha traído com um dos funcionários da loja mas, Belizário, nesse sentido, não fez e não quis saber de nada, preferindo para si a vista grossa. Era mais cômodo. Ele só cantava de galo fora do galinheiro. Traíra. Belizário falava mal, escrevia mal, se vestia mal, tinha hálito ruim e hábitos maldosos. A fraqueza dele estava na forma como enxergava os outros ao redor. Quem não era parecido com ele, não podia ser amigo dele. Poucos eram como ele, por isso poucos estavam próximos dele. Belizário chorava toda essa distância, não pela solidão, mas por não ter conseguido fazer dos demais a pessoa desumana que era. A incompetência desse sujeito solto no mundo, pela primeira vez, foi competente. Personificação do só; tanto do ínfimo quanto do não coletivo. E desse jeito ele seguia.
A relação com os filhos estava longe de ser algo familiar e afetuosa. Não era justo dizer que eles serviam com uma vitória pessoal. O convívio fez o papel dele. Os mais velhos herdaram, cada um de seu jeitinho, traços egoístas e interesseiros do pai. Se não fosse o empenho forçado dos meninos, a loja, sustento de todos, não estaria de pé. Belizário não tinha humanidade suficiente de plantar e ver crescer. Os filhos estavam vivos por sorte e azar. Antônio sempre quis mais do que podia ter e desde pequeno desejava objetos dos irmãos. Conforme foi crescendo, suas vontades e ambições foram ficando mais nítidas: assumir a chefia da empresa da família. Sempre foi paciente. Não desejava a liderança e o poder assim, do nada. A graça da conquista estava no desenho conduzido para chegar aos objetivos. Antônio tinha relação boa com os irmãos e não gostaria de estragar isso mas, ao contrário, usar a favor. Certa vez, sabendo das trapaças do mais velho, Fábio, contou para o pai que o dinheiro sumido do envelope estava na bolsa de uma antiga funcionária. Agindo desse jeito durante toda própria existência, Antônio conseguiu convencer dizendo que a moça sabia os pormenores da caixa registradora e aproveitou disso para despistar o sumiço da quantia. Em pouco mais de duas semanas Quênia, a então gerente da loja, havia sido demitida.
Nunca mais ouviram falar dela. Nem os papeis burocráticos de pós demissão Quênia apareceu para assinar. Era profissional de qualidade. Trabalhava há anos na empresa de Belizário e se tornou respeitada por suas ações. Trouxe muito lucro para a família Silva. Nada disso foi levado em conta na hora do fim. Fábio, claro, ficou contente com a situação montada para lhe tirar a culpa, mas Antônio, sem dúvida alguma, não tinha armado tal arapuca para agradá-lo, o fez para continuar com o apoio do pai e seguir as próprias ambições.
Infelizmente, Quênia, roubo é uma coisa que não se aceita nessa empresa. Eduquei meus filhos de forma rígida pra não ter que lidar com isso em casa. Pode ir embora. – disse Belizário sem ao menos agradecer.
Eu não roubei nada. Acreditem em mim. – afirmou Quênia, convicta, saindo pela porta da frente. Mas tudo bem. A verdade um dia vai aparecer. Desejo tudo de bom pra todos.
Não levou e não deixou nada.

*

Na sequência, alguém fará aniversário e durante a comemoração uma situação deixará integrantes da família Silva inquietos e preocupados.

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