Conto | Foi você

Antes de apresentar a segunda parte, essa criação textual, agora intitulada ‘Foi você’, ia ter os seguintes títulos:

Castigo do crime | Sem pecado, sem culpa | Ficção do real | Fake news 

Perfume amadeirado | Desejo coletivo | Metáfora do inexistente | Foi você, fui eu

 
O modelo de escrita, repetido e com sentenças curtas, é uma opção pessoal para dar dinamismo aos personagens intelectualmente limitados e que nos fazem, por vezes, pensarem por eles. 

*

PARTE 2
A insignificância de Belizário aumentava a cada dia, assim como os sintomas de uma gripe muito forte e traiçoeira que ele reconheceria, mais futuramente, não ser um resfriado comum. Ele brigava com deus e com o diabo. Para ele, o mundo deveria estar debaixo da sua falsa autoridade. Só acreditava nas próprias mentiras e achava justo dizê-las sem responsabilidades, como o fez com a antiga parceira de trabalho, então, sem culpa alguma. Os filhos já estavam acostumados com a baixeza intelectual, na prática, agiam quase idênticos. Depois da demissão de Quênia, a família se viu mais forte e acreditando no quanto a atitude foi acertada. Eles gostavam de se enganar. Há tempos comemoravam as inverdades contadas uns para os outros. Seguiam uma vida ficcional e se sustentavam nisso para agradar não se sabe quem, embora fossem odiados por muitos, principalmente Belizário, chamado por muitos de Beli bélico. O mais novo dos mais velhos, Washington, quando criança, por descuido dos pais, levou um tombo de bicicleta brincando numa ladeira próxima de casa, onde bateu a cabeça no chão com muita força. A bicicleta não sobreviveu à irresponsabilidade do menino. Belizário quando soube do acidente estava no trabalho, terminando afazeres rotineiros e, sem muito alarde, foi ver o que estava acontecendo com um dos filhos. Com sangue na roupa, arranhões pela perna e quase desacordado, foi levado para o hospital. O ex-garoto carregou consigo esse trauma por toda a vida. Por conta da queda, Washington assumiu um leve atraso cognitivo e uma imperceptível deformidade no braço direito. Como resposta do universo, talvez, para castigar alguém daquela casa, todas as relações amorosas tentadas por ele não davam certo. A família achava normal essa falta de raciocínio e desamor. Belizário e os demais não tinham parâmetros para perceber o quanto o filho era extemporâneo e desajustado. O atraso do rapaz, consequentemente, o fazia acreditar, por exemplo, que para ser feliz era preciso se casar com uma moça virgem, de pele clara e religiosa. Mas o pobre não sabia o quanto essa instituição estava fadada ao insucesso. As uniões matrimoniais só começam para acabar; quando não no papel, nas relações cotidianas. É essa, portanto, a serventia do casamento; findar-se. Mesmo assim, para o mais novo dos mais velhos, o que não se enquadrava nesses delírios pessoais não podia dar certo e ser constituído familiar. Não cabia na norma divina compreendida por ele.
É assim e vai ser assim. Quem não quiser pode sair da fila que atrás tem gente. – disse Washington comprovando o falta de lucidez.
A mulher ideal está vindo, filhão. Mas até lá não precisa passar fome, né? – encerrou o pai.
Era aniversário de Tereza, a caçula da família. Alguns colegas da escola apareceram na casa da menina para comemorar o novo ano. Belizário recepcionava a todos com tapas estalados nas costas e apertos rudes nas mãos. A adolescente era muito nova para agir como os irmãos e o pai, tinha uma certa civilidade. O tempo passava e os adultos conversavam entre si, enquanto os mais jovens mediavam os assuntos desinteressantes com o celular. Tudo ia muito bem naquela tranquila noite de março. Era calor e ainda existiam restos do carnaval pelo ar. Nada poderia estragar a comemoração da aniversariante. A garota esperava por aquela fuga de rotina há alguns meses e se mostrava alegre por ver outras pessoas passeando pela casa. De repente, entre risadas e movimentos, um barulho alto e agudo soou a duas quadras dali. Alguns convidados foram para a sacada ver se percebiam alguma movimentação estranha e corrida. Belizário, que estava conversando com um senhor de idade próxima a dele, continuou do mesmo jeito e fingiu não ter escutado nada.
Não ouviu o barulho, pai? – perguntou Tereza.
Não. – respondeu ele.
Pareceu ser uns tiros lá pelos lados da Consolação. Vi uns carros passando rápido aqui embaixo. – disse um dos convidados, virando para os outros na sala.
Isso aí não é nada. O carnaval pra essa garotada ainda não acabou. Ficam infernizando a vida das pessoas com essas bombinhas a noite toda. –  Depois dessa fala, Belizário preferiu encerrar o papo indigesto e dar fim à festa.
Logo após a saída dos amigos e convidados, Tereza se despediu da mãe e foi para o quarto um pouco irritada por ver a própria festa acabada antes do previsto. Se zangou com a atitude autoritária do pai e bateu a porta com muita força, fazendo lembrar de quem era filha. Pensando nos acontecimentos inesperados, mandou mensagem para os colegas se desculpando pela jeito estranho como o pai havia dado fim àquela noite. Ninguém estava chateado com a situação, só não tinham entendido o desenrolar. Por fim, já quase dormindo, a menina terminou dizendo que estaria na aula no dia seguinte, porque às quintas-feiras ela tinha a melhor aula da semana e não podia faltar.  Enquanto a mãe ajeitava a bagunça deixada na sala, acompanhada da secretária, Belizário recebia um telefonema. Para atender precisou sair para a sacada, onde minutos antes alguém falava da agitação estranha ocorrida na rua. Era quase dez horas da noite, no telefone era Fábio falando em tom baixo e um pouco questionador. O pai ficou sem entender a ligação e foi logo perguntando o motivo do filho não ter aparecido no aniversário da irmã.
Pai, você sabe muito bem porque eu não fui. – disse.
Me respeite, moleque!
Você ouviu algum barulho aí? – perguntou Fábio.
Ouvi, mas fingi que não. Isso daí não era pra outra semana? Logo hoje no aniversário da Tereza, cara? Te viram?
Não sei, não sei! Amanhã, na loja, faça vista grossa. Se me procurarem, diz que fui viajar.
Pensativo, Belizário desligou o telefone.
Na manhã seguinte só se falavam dos barulhos; tanto na loja quanto no noticiário o assunto era o mesmo. Belizário estava desconfortável com toda a situação e se via brigando com os funcionários sem nenhum motivo aparente. Chegou a dizer que demitiria a todos se não focassem no trabalho e nas demandas de cada departamento. Estava possesso, como nunca antes. Antônio percebendo que o pai poderia dar alguma bandeira, pediu para ele descansar em casa e voltar mais despreocupado no dia seguinte. Ele foi. Também um pouco irritado, mas disfarçando muito bem, seguiu as ordens do dia no lugar de Belizário, e preferiu não dar atenção para as notícias tendenciosas e estressantes. Não entendia o motivo de tanta algazarra por conta de um nada qualquer, tendo em vista a quantidade de situações parecidas por dia. À tarde, andaram procurando pelo Fábio, mas já era sabido pelos empregados que ele havia viajado e só voltaria na próxima semana. Eram dois homens, já conhecidos de outras idas e vindas, inclusive, também eram amigos de Belizário. Ao final do expediente, tentando minimizar a movimentação do dia, Antônio animou alguns funcionários dizendo que a sexta-feira estava se aproximando e aproveitou para deixar claro o quanto a vida era bela para os trabalhadores alegres e honrados, como ele.
Chegando em casa foi ver como o pai estava. Para manter a família sempre unida e sob controle, todos ainda moravam juntos. Belizário estava na sala acompanhando a programação do jornal local, na busca de saber algum detalhe incriminador. Encontrava-se bastante interessado em nomes ou provas que ligassem ao Fábio, o filho mais velho. Antônio já sabia de tudo desde a noite anterior, quando o irmão mandou mensagens explicando como agir. Sentou-se ao lado pai com semblante despreocupado e assistiu por um tempo as notícias.
Pai, isso não vai dar em nada. – afirmou Antônio.
O seu irmão é um burro. Como ele faz uma coisa dessa sem pensar? Se descobrirem o nome dele, estamos fodidos. – disse o pai em tom preocupado.
Garanto pra você que mais uma semana ninguém fala mais disso. Fica tranquilo. Vou tomar um banho. 
Belizário ficou remoendo as informações do noticiário juntamente a fala do filho e, para o próprio conforto, preferiu acreditar no esquecimento das pessoas. Isso de alguma forma trazia calma para o pecador. Imaginar o nome da família envolvido em um crime o deixava ainda mais atormentado. Tudo de errado e escondido durante muitos anos, se alguma prova fosse encontrada, poderia vir à tona e destruir o castelo de ilusões erguido sob a areia de ossos. Dentro de seu próprio egoísmo e rancor, o mais importante era manter a imagem limpa, nem que para isso fosse preciso muita sujeira por trás. Pouco importava os pormenores: para reforçar a opinião dos vizinhos e funcionários, era preciso sustentar essa persona pseudo honesta e possuidora da ética e moral. Os dias foram passando, as mesmas histórias familiares iam se repetindo, o crime da Consolação nunca mais voltou a estar na boca da sociedade e nem nas manchetes de televisão e jornal. Um ou outro comentava a falta de apuração no caso, mas o estado geral das pessoas era de quase indiferença. Mais uma vez, para a própria sorte, Fábio não levava a culpa por seus erros onde, nessa situação, foram elevados à crime: ele havia ajudado a matar um homem. Belizário temia o desenrolar dessa emboscada porque o sujeito morto, na verdade, atrapalhava seus planos de crescimento para a empresa. Organizado pelo filho mais velho, os barulhos escutados na fatídica noite, durante o aniversário da irmã, eram destinados àquele que poderia atravancar os desejos financeiros do patriarca da família Silva. A vítima era um desafeto dos dois. Com a demissão de Quênia, Fábio assumiu automaticamente a gerência da loja, mas não deixou o cargo ocupado desde muito cedo na diretoria, e por conta do duplo desejo e ambição, precisava honrar o posto conquistado. Sem concorrência e dessabores, Belizário e o filho brindaram mais essa vitória.

*

Na sequência, Belizário descobre algo muito enfurecedor para ele. Essa cena vai lhe custar caro.

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