Conto | Foi você

Antes de apresentar a terceira parte, essa criação textual, agora intitulada ‘Foi você’, ia ter os seguintes títulos:

Castigo do crime | Sem pecado, sem culpa | Ficção do real | Fake news 

Perfume amadeirado | Desejo coletivo | Metáfora do inexistente | Foi você, fui eu

 
O modelo de escrita, repetido e com sentenças curtas, é uma opção pessoal para dar dinamismo aos personagens intelectualmente limitados e que nos fazem, por vezes, pensarem por eles. 

*

PARTE 3
Passaram-se alguns meses e a falsa normalidade da distinta família começou a perder o ritmo. O ponto alto dessa impaciência foi quando Belizário descobriu o relacionamento de Marcos, o mais novo dos rapazes. Possuidor de uma doutrina antiquada e preconceituosa, jamais aceitaria o filho namorando com outro. À noite, chegando do trabalho junto com Antônio e Washington, cumprimentou a esposa e a filha que estavam na cozinha, na sequência perguntou onde estava Marcos, porque tinha uma encomenda dele deixada na portaria e gostaria de entregar pessoalmente: ‘’Está no quarto’’ – disse a menina. Belizário subiu as escadas e antes de chegar na porta de Marcos, ouviu uma conversa dele ao telefone. Suspeitando do comportamento do jovem já há algum tempo, atentou para não fazer nenhum barulho, e devagar se aproximou ainda mais para entender as palavras ditas pelo filho.
Quando a gente vai se ver de novo? A última vez aqui em casa ninguém desconfiou. Você pode vir pra cá. Posso ver um dia onde a casa fica vazia. Topa? Terça, três horas é uma boa. Fechado? – disse Marcos, passando os detalhes do grande dia.
Belizário não entregou o embrulho naquele momento, era uma caixa quadrada de tamanho mediano. De trás da porta, conseguiu ouvir toda marcação acordada pelo filho mais novo, lá dentro, por telefone. Seguiu direto para o próprio quarto e tratou de guardar a caixa no fundo do guarda-roupa, pois desejava entregar numa hora mais propícia. No jantar, na mesma noite, entreolhou o filho por horas e horas, desejava adivinhar os pensamentos e os desejos escondidos dele. O garoto já tinha idade de trabalhar e viver com mais independência, mas não podia por causa das vontades descabidas do pai. Vivia mau humorado dentro de casa, pouco ajudava nas atividades básicas, estava sempre trancado dentro do quarto jogando vídeo game e falando ao celular. Quando a mãe perguntava como estava, dizia a mesma coisa e partia em retirada. Os dias passaram e a data marcada chegou. Belizário estava na loja atento ao horário, não havia dormido direito pensando no que poderia encontrar em casa junto ao filho. No horário marcado saiu da loja sem ninguém perceber, ligou o carro e seguiu com destino certo: a própria casa. Cerca de vinte minutos depois estava na portaria perguntando se alguém tinha subido para o apartamento 56 e, sem titubear, o funcionário do prédio confirmou: ”um rapaz alto, de óculos e com uma mochila nas costas”.
Posso avisar a subida do senhor? – perguntou o porteiro, seguindo o rito habitual do ofício.
Claro que não. Não avise nada. Abra esse portão logo. – disse Belizário.
E lá se foi Belizário, já bastante pensativo e imaginando o que poderia encontrar chegando em casa. Em silêncio estacionou o carro, subiu rapidamente às escadas e mais adiante chamou o elevador. Nesse momento passou um filme na cabeça, muitos pensamentos atordoavam o patriarca nesse instante e antes de abrir a porta desejou a própria morte caso confirmasse a cena imaginada desde a saída da loja. Sem fazer barulho pegou as chaves no bolso e entrou. Na sala não havia ninguém, somente os sapatos da visita inesperada, uma mochila e um cheiro de perfume amadeirado recém chegado. A raiva, o ódio, a infelicidade e tudo de mais maligno tomou conta daquela pessoa nefasta. Não sentia as sensações perpassando pelo corpo. Flutuava no próprio vício perverso. Passou pela cozinha, pegou uma faca grande e amolada e um pouco trêmulo foi em direção ao quarto de Marcos. Sem demorar mais, abriu a porta sem tranca e viu a cena pensada minutos antes: na cama, o filho estava beijando outro enquanto se acariciavam. Assustados, os dois olharam para Belizário e tentaram se explicar, mas de nada adiantou. Aos gritos e palavrões, sem a faca na mão, ele partiu para cima da visita indesejada e colocou nele a culpa do filho ser um endiabrado, sujo e vergonha da família. Marcos tentou separá-los até conseguir, depois de muito esforço, jogar o pai no chão, possibilitando a saída do jovem às pressas. Depois disso tudo, Marcos ainda levou um tapa forte no rosto e, nesse meio tempo, Belizário pegou novamente a faca jogada no chão e tentou alcançar o fugitivo, mas sem sucesso. Antes da confusão acontecer, ainda deitados, os garotos estavam vestidos, o que facilitou a descida ágil pelas escadas. Só deu tempo de passar a mão no par de sapatos, na mochila e correr para a portaria. Com medo das atitudes impensadas do pai, Marcos se trancou no quarto por algumas horas e esperou a poeira abaixar. Andando por toda casa, Belizário parou no corredor, próximo ao banheiro, e começou a bater na parede para aliviar ali a própria indignação e raiva. Por muito pouco não matou o companheiro do filho, ficando ainda mais ensandecido pela tentativa frustrada. Ninguém nunca soube dessa cena assustadora, somente os três protagonistas do horror. Belizário e Marcos estabeleciam desde então uma relação ainda mais odiosa, se evitando o tempo todo e escondendo a verdade dos demais familiares. Marcos ficou completamente desamparado depois daquela situação. Não podia mais recorrer ao amor investido no jovem rapaz.  Por medo ou até por precaução, eles não voltaram a se ver tão cedo. No apartamento 56, a tensão era palpável. O caos, em suas diversas formas e sentidos, era o tempero daquelas pessoas inconvenientes. Todos eles transitavam, de alguma maneira, no pântano da estupidez. Se as relações não fossem intermediadas seguindo os moldes mais primitivos da humanidade, a família Silva não conseguiria se manter de pé, visto que era essa a semente mais frutífera daquela instituição. Reverenciar a incivilidade passou a ser o novo bom dia pela manhã.

*

Na sequência, a verdade de Belizário fica exposta para todos. É o fim de todo mal.

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