Bastidores de ‘Foi você’

A ideia para a criação desse conto surgiu durante uma insônia movimentada, como quase todas que aparecem durante a noite. Antes de dormir a cabeça deste que lhe escreve vira uma panela de pressão e, ocasionalmente, é preciso anotar algumas ideias no bloco de notas do celular. São frases nunca ditas, possíveis pautas para essa plataforma, filosofias baratas e trechos de textos já em andamento. Acredito que todos e todas que possuem o hábito de escrita ou composição de algo textual já passou ou passa por essa descarga de ideia; ela simplesmente vem e precisa de amparo. No dia seguinte, quase sempre, ela perde um pouco daquele tesão inicial, mas ainda assim ilumina a composição do objeto produzido.

Nunca havia escrito algo inventado ou fantasioso, caraterísticas essas indissociáveis desse gênero literário. Já me aventurei numa crônica, outro modelo de redação mais resumido e voltado para a realidade do cotidiano. ”Você leu o jornal hoje?” traz uma conversa despretensiosa mas com muitos significados, tanto para aquele período da publicação quanto para a atualidade — o que não precisa acontecer com esse tipo de texto. Enquanto a crônica divaga brevemente sobre uma situação real, o conto mergulha na invenção e no entrosamento entre personagens e enredo, não esquecendo de vislumbrar um final animador e inquietante. Foi essa a tentativa esboçada para Foi você, o primeiro conto do Mesa22.

Enquanto a crônica divaga brevemente sobre uma situação real, o conto mergulha na invenção e no entrosamento entre personagens e enredo, não esquecendo de vislumbrar um final animador e inquietante.

Logo de cara é sugerido um dilema que se configura como tal conforme a leitura é iniciada; a narrativa em questão não se baseia, diretamente, numa situação real e nem tenta dar conta de personagens em destaque no momento. Na sequência um aviso, já contribuindo com o entendimento da história: ”O modelo de escrita, repetido e com sentenças curtas, é uma opção pessoal para dar dinamismo aos personagens intelectualmente limitados e que nos fazem, por vezes, pensarem por eles.” A personalidade dos sujeitos descritos nessa criação não faz parte do mundo contemporâneo e minimamente progressista. Principalmente os adultos da família, todos eles possuem uma mentalidade com o ciclo civilizatório incompleto, o que explica o fato deles não serem reconhecidos como seres humanos na mais nobre das definições. Portanto, as atitudes e o modo como ordenam a vida e as trocas sociais são consideradas infelizes e amplamente contestáveis do ponto de vista legal, ético e moral. Eles estão alocados numa realidade, isso é verdade, mas as condutas que optam em seguir não fazem parte do ”novo normal” estabelecido.

Belizário tem como objetivo representar o poder e suas infindáveis possibilidades, por isso sua conduta deve ser questionada e refletida no campo prático da realização e pensando, portanto, nas consequências futuras. Como assim contribuir para o mau-caratismo da própria prole, sangue do próprio sangue? Como erguer um império pessoal sobre os escombros da infelicidade e do rompimento com as mínimas estruturas que organizam os rumos da sociedade? Quais são os limites da conquista do poder? Eles existem? Não esquecer o assassinato de um sujeito sem nome, morto para que ele continuasse com o plano brutal de controle e ganância. Essa cena possui metáforas com outro famoso e midiático assassinato da vida real. O protagonista desse enredo foi até o fundo do poço para se manter no altar das aparências. O importante era a imagem idealizada pelos outros, a construção hipócrita desenhada por terceiros e que raramente se aproximava do real. A mentira, a autoverdade e os códigos enganosos sustentados pela família Silva fazem parte da dinâmica do domínio. Sem esse método, eles próprios se implodiriam.

A mentira, a autoverdade e os códigos enganosos sustentados pela família Silva fazem parte da dinâmica do domínio. Sem esse método, eles próprios se implodiriam.

Os filhos foram formados pela ignorância do pai – tanto a ignorância no trato quanto a do verbo -, enquanto a mãe, como quase todo personagem materno, caminha pelos cantos da sala, sem muita voz ativa devido ao machismo que não precisa ser descrito aqui; ele era palpável em Foi você. O ambiente onde somos todos introduzidos inicialmente, vão dizer inúmeros pensadores da culturologia, é o fator configurador da nossa identidade, da nossa personalidade e, futuramente, norteador das nossas atitudes, sejam elas negativas ou positivas. O destino de Fábio, Antônio e Washington não poderia ser diferente daquele traçado para eles. Em oposição aos mais jovens, Marcos e Tereza, os primogênitos tiveram contato suficiente para adquirirem para si todos os trejeitos questionáveis daquele sujeito patriarcalista. Numa certa medida, esses personagens receberam a parcela de punição que deveria ser direcionada ao pai. E o castigo em questão não surge somente do Ser Todo Poderoso, o grande juiz, mas das mãos e das subjetividades daqueles que, a princípio, nada podem contra o ”todo poderoso” terreno.

Beli Bélico, como os vizinhos chamavam Belizário, representa o poder inquestionável. É um sujeito corrompido e corrompedor, por isso a necessidade em dar fim à sua representação — Foto: Reprodução

Por falar em Marcos e Tereza, os mais novos da trama, essas personagens desenvolveram um papel importante nesse enredo; são eles quem contemporizam e se aproximam de uma suposta realidade onde eu e você, caro(a) leitor(a), estamos inseridos(as). São eles que rompem com todas as chances dos modelos antiquados de atuação do pai se perpetuem e ganhem outras possibilidades. Pensando nisso, a escolha em destinar ao rapaz em questão um relacionamento homoafetivo é a afronta necessária para derrubar ou simplesmente deslocar o famoso status quo, ou seja, aquilo impositivamente convencionado a ser tratado como dado e natural, mas demanda urgência em mudanças e posicionamentos críticos. A queda de Belizário, pode se dizer assim, foi iniciada nesse momento. Futuramente, Tereza se formaria em sociologia e isso, conhecendo os pormenores dos integrantes daquela casa, era uma afronta à incivilidade louvada e experimentada diariamente. Restabelecendo o mínimo de relação familiar dessas figuras, ela e o irmão são quase a mesma ideia, um o complemento do outro: Tereza é a utopia, Marcos é a efetivação dessa liberdade que a irmã ainda não experimentava por conta da idade. Há um diálogo diacrônico, temporal no entorno dessas duas performances.

O ponto alto dessa criação tem a ver, a princípio, com as relações construídas por Marcos. Mas não só. Acima de tudo, o que aconteceu com Belizário é o retorno das próprias atitudes criminosas. É sobre isso que vamos falar agora.

O assassinato sem culpa

Essa foi a chave principal que possibilitou todo esse exercício de escrita. Como matar alguém sendo totalmente contra o extermínio da vida? Ainda que alguém mereça a morte como castigo, cabe a mim desejar e fazer isso? A morte do protagonista é um assassinato individual, feito e desejado por cada um de nós frente as arbitrariedades de um sujeito determinado, aqui representado por Belizário. Matá-lo com as próprias mãos, arquitetar seu fim e ver o sangue escorrer, de algum modo, nos colocaria na mesma condição inumana dele, porque é essa a forma como o personagem resolve os próprios ”problemas”. O assassinato intencional, portanto, retira de circulação não a figura personificada, mas a prática encarnada. O método aparentemente brutal como o patriarca da família Silva foi assassinado reflete a nossa mais profunda indignação e incapacidade de contribuir efetivamente para um bem maior. Aquelas facadas representam o mínimo dos estragos reais que foram causados em pessoas reais, como o caso da funcionária Quênia, demitida sem nenhum motivo num jogo baixo entre Fábio, Antônio e Belizário. Todo esse cenário poderia configurar uma grande barbaridade, mas não será enquadrado como tal porque nesse movimento feito por um personagem sem nome, há uma busca por justiça e reparação de um passado conturbado. É importante dizer que não foi vingança. Não é esse o interesse do assassinato (quase) filosófico. Como já foi dito, a intenção daquela morte tira do nosso horizonte o pecado e não, direta e consequentemente, o pecador. Apesar de todo histórico, ainda assim nos restaria o mínimo de compaixão por essas vidas insolentes, porque somos a representação da civilidade e vivemos no novo normal estabelecido – defesa pela vida, progressistas, éticos e justos. O antagonismo faz parte desse jogo criativo, sem dúvida, e se for para culpar alguém, não poupo em dizer: foi o próprio sujeito. Essa perspectiva não é, nem de longe, algo relevante para a compreensão desse conto.

O assassinato intencional, portanto, retira de circulação não a figura personificada, mas a prática encarnada.

O assassino de Belizário não possui nome e nem muitas definições físicas porque Foi você e por isso não há culpa atribuída à sua pessoa. Você é plural. Nesse momento, nós compartilhamos um mesmo assassinato intencional. Talvez até tenhamos um personagem real para dar fim. Fica no ar o desejo e a busca por essa persona que se assemelhe ao velho patriarca e seus filhos.

Título e o fator x

Quem já leu o livro A Hora da Estrela (1977), da Clarice Lispector, percebeu a similaridade na quantidade de nomes pensados antes de definir algum. Na verdade, todos dialogam com a ideia central da criação. Nesse mesmo livro, logo no início, a autora traz um pensamento interessante a respeito da escrita, onde diz mais ou menos que, para se alcançar o fácil, é preciso um grande trabalho na complexidade, no difícil. E foi justamente isso que aconteceu na escolha do título de Foi você. Antes de decidir, foi pensado em ”Castigo do crime”, ”Sem pecado, sem culpa”, ”Ficção do real”, ”Fake news”, ”Perfume amadeirado”, ”Desejo coletivo”, ”Metáfora do inexistente” e ”Foi você, fui eu”. O simples sempre diz muito.

Diferente do nome escolhido para estampar o texto aqui discutido, tenho quase certeza que esse detalhe minúsculo passou batido na hora da leitura; o embrulho amarronzado de Marcos, recebido pelo pai, mas reaparecido muito tempo depois escondido no guarda-roupa. Era o perfume amadeirado, comprado para lembrar do amor outrora escorraçado e humilhado por Belizário. Esse objeto representa a esperança, aquele sentimento essencial para enfrentar um estado onde os podres poderes insistem em dizimar.

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