Por muito tempo a chamei de mamãe

Nas primeiras horas do dia 17 de dezembro de 2019, por volta das 3h10 da madrugada, mamãe partiu dessa vida. Diferente de Meursault, não titubeei na certeza: ela havia partido. Meu telefone tocou inúmeras vezes mas, por estar no modo silencioso, não escutei nada. Pela manhã, quase oito horas, reparei as ligações não atendidas da minha tia, Carolina, e a mensagem que dizia objetivamente: ”Sua mãe morreu.” Nesse momento me recordo do nada, da sensação de total suspensão da vida, me lembro de andar pelo corredor da casa sem saber o que pensar. Foram cinco minutos cinematográficos; veio toda memória, os aromas, conflitos e ao mesmo tempo o nada quase palpável. Não chorei na primeira hora. Depois de aterrizar a parte traseira do meu infortúnio, liguei para minha avó e tia. Ambas estavam desoladas e eu, em outro estado, na tentativa de consolá-las, acabei sendo consolado por elas, principalmente pela matriarca, agora sem a primogênita. Nesse mesmo dia precisava cumprir algumas atividades da faculdade e cumpri, apesar de tudo. Era final de semestre, estávamos todos esgotados e havíamos agendado para aquele dia infeliz, sem imaginar o ocorrido logicamente, um churrasco de confraternização e encerramento do período letivo. O encontro aconteceu, conseguimos rir das últimas situações da faculdade, mas só meu corpo físico estava lá. Se preocuparam em reagendar a festa, mas não fazia sentido dividir minha perda desse jeito. Numa leve contradição, tal atitude seria egoísmo. Inclusive, meus amigos(as) foram muito gentis comigo. Distante da minha família sanguínea, desequilibrado psicologicamente, eles(as) atuaram com o apoio emocional e afetivo que eu precisava. Assim como o Vittor, o único elo que me unia à minha casa, à minha vó e à minha mãe. Seria impossível aguentar os dias que antecederam minha viagem sem os cuidados dessas pessoas. Ela morreu numa terça, mas só consegui chegar em Paraty na sexta-feira, dia 20 de dezembro. A tristeza, enfim, encontrou seus pares.

Hoje, 26 de agosto, ela faria aniversário. No meu íntimo continua fazendo. Se estivesse conosco, mamãe completaria 44 anos. Adoraria escrever que nesse pouco tempo de vida ela foi amplamente feliz e totalmente livre; justamente o que não foi nesses longos dias, arrastados há mais de 20 anos e enfrentando diariamente o azar de estar viva ao lado de pessoas desqualificadas. Minha mãe foi vítima mortal do machismo, da ignorância compartilhada e da miudeza humana onde estava inserida. Com o passar do tempo, imersa numa realidade contagiosa, acabou se acomodando àquele espaço desconfortável e, infelizmente, adotando para si algumas daquelas características. De certa forma, tive sorte de não viver essa mesma situação, tendo em vista minha mudança para a casa da avó ainda criança, com pouco menos de dez anos. Me via incomodado desde cedo com o cenário violento ao meu redor. Tentamos infindáveis vezes tirá-la daquilo que não podíamos chamar de vida. O canto repugnante do machismo reverberava nos pensamentos da minha mãe e isso a conduzia novamente para o cárcere. Nos tornamos também vítimas da doença inculcada em homens retrógrados, decadentes e abjetos; sujeitos autoritários e abusivos que se denominam proprietários de mulheres. Todos os que não ajudaram minha mãe a mudar de vida a assassinaram também. Se alguém percebe o mal em seu entorno e nada faz para estancar, este é tão perverso quanto aquilo que deveria combater. Esse relato não é somente um compilado de memórias, uma demonstração póstuma de afeto, é também uma denúncia.

Minha mãe era mais uma Ana da nossa família: Ana Carolina, Ana Clara, Ana Cláudia, Ana Lúcia e ela, Ana Paula. Na casa dos pais mamãe tinha uma vida compartilhável. Tinha amigos, tinha namorados, frequentava a igreja Batista onde, mais adiante, eu também frequentaria. Podia ver os pais com frequência, pois viveu a infância e juventude com eles — fato esse não repetido com o desenrolar das décadas. Segundo minha vó, mamãe tinha tudo o que desejava, era mimada, comemorou os aniversários com festas até os 15 anos de idade. Exercia a própria liberdade com liberdade. O tempo foi passando e as relações e trocas sociais foram surgindo. Nessa busca por experiências fui concebido, em 1994, para o susto da dona Eni e raiva do meu avô. Com menos de 20 anos ela dava luz ao primogênito, mãe de primeira viagem, aventureira e sem muito tato com o sujeitinho feio recém-nascido. Não recordo dos meus primeiros anos lá na Ponte Branca, mas nesse período ela era solta na vida, dona da própria existência, me dizem. Sua trajetória mundana, eu diria, foi dividida em dois grandes opostos: o início promissor e o final lamentável. Não teve meio termo; foi da glória para a lona. Mamãe parecia pressentir o futuro limitado, fazendo daquele presente o mais libertário possível.

Ela adorava cantar e cantava muito bem, diga-se de passagem. Na linguagem do canto, transitava entre mezzo-soprano e contralto. Na igreja aonde íamos chegou a liderar o conjunto infantil por alguns anos. Inclusive, lembrar dos ensaios, com todas aquelas crianças nos finais de tarde, desperta em mim emoção profunda. Nessa época ainda a chamava de mamãe. Na verdade, por muito tempo a chamei de mamãe. Cozinhar era uma das maiores habilidades que tinha. Cozinhava com gosto e tudo que fazia era de excelência ímpar. Quando eu chegava da escola, lá da esquina já sentia o cheiro de pão caseiro que ela fazia recheado às vezes com goiabada, às vezes com doce de leite. Até hoje lembro do cheiro, do sabor. No meu aniversário de 24 anos ela cozinhou um almoço inesquecível para mim — inesquecível tanto pela qualidade das comidas, quanto pelo ineditismo do episódio. Era uma senhora lasanha, bem feita, acompanhada de umas três sobremesas diferentes e um bolo de chocolate recheado com coco. Não tínhamos mais tanto contato assim nessa época, já estudava fora e nos víamos poucas vezes no ano. Esse foi um dos raros momentos em que compartilhamos a vida de modo mais íntimo, maternal. Ela estava feliz por nos proporcionar aquela rara experiência. O fato de estar na casa ”dela”, com determinadas pessoas, foi atitude de amor vinda da minha parte, não tenha dúvidas. Outra vez, na intenção dela, numa rifa vendida por uma amiga, nunca vou esquecer, era agosto, cheguei a verbalizar o número em voz alta: ”26 porque é o dia do aniversário da minha mãe”. Passou o período do sorteio e essa mesma amiga me ligou avisando que eu havia ganhado uma televisão smart, de 32 polegadas. Não me lembro se contei essa história para ela, infelizmente. Mamãe era virginiana nata, vivia em função de organizar as coisas, limpar e ajeitar as bagunças dos outros. Quando morávamos juntos, a rotina de organização era sistemática, diariamente as mesmas funções, o mesmo esforço. Lembro de ajudá-la e ouvir comentários infelizes, não dela. Levando em consideração o fato de a existência ser um vasto paradoxo, lamentavelmente ela não conseguiu pôr em ordem o imbróglio da própria vida. Mudando um pouco a rota desse percurso, alegria imensa mamãe teve com o nascimento da minha sobrinha, sua primeira neta, Eloá. De toda certeza, foi esse seu último sopro de prazer e satisfação: ser avó e ajudar nos primeiros passos daquele ser delicado e carente de afetos. Mamãe amou imensamente a netinha.

Minha mãe e a minha tia, Ana Carolina (que chamo somente de Carolina)

Por não aceitar a vida que ela levava, fui me afastando aos poucos da realidade dela. Infeliz por morar no lugar onde ela foi usada, preferi me mudar definitivamente para a casa da minha avó onde tive educação, respeito, aceitação e tudo o que uma criança precisava para crescer com a mente saudável. Tenho irmão e irmã por parte de mãe, ambos viveram com ela até os últimos dias. Por opção, prefiro não falar sobre eles. Essas situações contribuíram para o nosso distanciamento físico, mas nunca afetivo e emocional. Sempre desejei o melhor para minha mãe, arquitetei situações para vê-la numa vida mais honrada, mas não tive o sucesso desejado. Muitas mães não saem por aí dizendo qual filho é o predileto, assim ela fez também, claro, mas me disse da preferência que tinha por mim. Uma das nossas últimas brigas envolvia o relacionamento abusivo que enfrentava e, por mensagem, veio me pedir desculpas por me desapontar mais uma vez. A resposta foi o silêncio consentido. E de novo uma memória emotiva. Minha vó conta que ela não aceitava muito bem a minha orientação sexual, dizia ”não me ver como uma pessoa gay” mostrando, nesse pensamento, a resposta de nossas ausências. Não era homofóbica, jamais, mamãe tinha uma imagem congelada de um filho que não viu se desenvolver. Mesmo assim, torcia pelo meu crescimento pessoal e profissional. O último texto meu lido por ela foi o Agora é para todos, onde levanto pontos positivos de Paraty, validando o título oferecido pela Unesco. Ela elogiou, falou do meu modo de escrita e o quanto havia aprendido sobre a nossa cidade. Aquela fala me encheu de orgulho; não por mim, mas por ela, por ter visto também os primeiros passos do filho adulto.

Numa espécie de despedida, mamãe passou pouco mais de um mês na casa da minha avó, onde moro, ajudando a minha tia num empreendimento que acabou não vingando por falta de tempo e diálogo. Estava decidida a viver por aqui, sob os cuidados da mãe, irmã e, por tabela, do filho mais velho. Tudo ia bem, aquele início de vida da Ponte Branca parecia se repetir nesse outro lugar. Mais uma vez foi amparada pelos braços da mãe, garantindo não voltar nunca mais para a prisão de onde tinha vindo. Como disse, o curto espaço de tempo foi um adeus. Não cumprindo as promessas que fez a mim, o motivo do nosso último conflito, renegando os afetos da mãe, ela voltou para lá e, na sequência, para o hospital de Praia Brava em estado grave. Ninguém da família decente sabia da situação dela, muito menos a entrada no hospital. Ficaram sabendo do cenário depois da fatalidade, através de uma ligação onde pediram urgentemente os documentos da paciente. Nas primeiras horas do dia 17 de dezembro de 2019, por volta das 3h10 da madrugada, devido uma infecção generalizada, mamãe partiu dessa vida. Só nos deixou as saudades e as perguntas que jamais serão respondidas por ela.

Em agosto de 2017 conheci pela primeira vez a minha sobrinha. Na ordem: Carolina, mamãe, Gabriela, a bebê Eloá, eu e dona Eni, minha avó

As situações de submissão e falta de autonomia, presentes na segunda parte da vida, fizeram dela uma mulher escravizada. Acredito que não suportava mais experienciar abusos psicológicos e limitações primitivas vinda de outros — de idas ao médico, a visitas maternas. Minha mãe vivia o oposto da liberdade; ela viveu a morte. Muitas dúvidas rondam meus pensamentos em busca de respostas, tento encontrar além do óbvio os motivos dela nunca ter se revoltado contra tudo e todos e, lamentavelmente, chego à conclusão que só dependia da própria Ana Paula tomar as rédeas da vida, anular a imposição de terceiros e romper a porta da desgraça com chutes e protagonismo de ser quem era. Amparo não lhe faltaria, como nunca faltou, mesmo com o distanciamento. A morte real parece ter vindo para presenteá-la com a paz e com o descanso justo de uma experiência terrena exaustiva. Entretanto, tê-la aqui conosco nesse dia 26 de agosto despertaria enorme felicidade; tentar outra vez uma mudança de cenário onde ela pudesse brilhar, verdadeiramente, seria nosso maior presente. Nunca vamos esquecer o dia de hoje, assim como não esqueceremos os oito dias que antecedem o natal.

A única certeza no entorno do fim, da nossa falta de vida, é a incerteza do além. Seja amplamente feliz e totalmente livre aí onde estiver, mamãe. Obrigado por tudo. Feliz aniversário!

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