Fordismo da aparência

Duas semanas atrás estava conversando comigo mesmo no Twitter sobre um tema que tem me interessado bastante: a busca pela beleza. Rolos e mais rolos de selfies estampam as redes sociais com aquilo que de melhor temos para mostrar: nosso rosto, bunda, partes íntimas, cabelo e por aí vai. O confinamento causado pela pandemia estimulou ainda mais a exposição de nossos eus, enquanto alguns, sem nenhuma timidez, se exibem em festas ou encontros amigáveis. Ou seja, a sede pela exibição é tamanha que nem durante isolamento pandêmico o sujeito para de produzir reflexo de si. Ele precisa postar seus status e afazeres egoístas mesmo sob olhar crítico daqueles que ainda se mantém reclusos — ou minimamente afastado dos outros. Sem se dar conta do momento inoportuno, imagino que narciso deve achar bonito o que publica nas redes.

Podem ser questionáveis as frases seguintes mas, antecipo que não passam de experimentações e possibilidades de compartilhamento de ideias. A bem da verdade é que perdemos o limite da exposição, a divisa que separa nosso íntimo do social; a privacidade é um substantivo que vem tendo seu significado deslocado, se ajustando aqui e ali para não sumir do dicionário. Isso não é uma crítica, nas minhas percepções, é uma constatação. Na tentativa de dinamizar esse fato, por exemplo, existe uma rede social de perguntas anônimas que tem porta aberta para a intimidade: pauta-se de quantas vezes transa na semana a elogios físicos, de detalhamento sexual a pedidos de namoro. Tudo compartilhado sem nenhum recolhimento ou autocrítica no sentido de se questionar para quem respondo aquilo. Penso que todo esse emaranhado de divulgação de intimidades colabora para a exaltação de nós mesmos, massageia nossas frágeis carências e nos coloca num patamar compartilhável, fortalecendo a cadeia maquinal da internet.

A procura pela beleza está presente nesses mecanismos de amostragens. Cada um no seu nível e grau de efetivação. A meu ver, o que conta mais ponto na Mega-Sena da exibicionismo são as imagens, sem dúvida alguma. Como iniciei falando, são rolos e mais rolos de selfies e reproduções de nós mesmos, diariamente, a qualquer hora e quase sempre no melhor ângulo, óbvio. Quando nos deparamos com a grade de fotos de nossos celulares, percebemos o quanto trabalhamos para alimentar a esteira de produção que é paga com curtidas, comentários e compartilhamentos. Antes a gente pagava para revelarmos nossas fotos, hoje, nesses novos moldes, pagam para nos verem — e nos verem bonitos a qualquer custo.

Fordismo é um modelo de produção em massa criado por Henry Ford em 1914. Com a aplicação da técnica, cria-se uma linha de montagem com padronização dos produtos – Foto: Reprodução

Essa busca desenfreada pelo melhor ângulo, pela melhor pele e melhor iluminação tem nos deixado cada dia mais enquadrado e fisicamente parecido com a pessoa do próximo storie. O mundo virtual tem espelhado cirurgicamente nas feições do corpo social. Chamo esse efeito de fordismo da aparência: estamos nos montando para parecermos com a Barbie e com o Ken, não com o João, com a Isabela e com o Pedro, por sua vez, pessoas comuns e humanamente reproduzidas. Até a contracorrente deseja se aproximar dos traços produzidos pela Mattel. Nossas particularidades e identidades, até o começo do século bastante valorizados, estão se enfileirando para a mutação e indo de encontro com aquilo que é identificado atualmente como ”beleza padrão”. E o termo ”padrão” é reafirmado aqui como peça automobilística que não pode conter defeito ou ser disforme pois, se tiver, é devidamente descartado pelas mãos daqueles possuidores da régua da simetria.

O filósofo conservador Roger Scruton disse num de seus documentários sobre estética da arte que hoje em dia ”vivemos rodeados de feiura” e que o remédio para os grandes artistas no passado era a beleza. Só nessa frase ele desvaloriza as belezas do contemporâneo, com toda sua crítica e revolução, e defende o próprio azedume senhoril. Para tirar o sono daquele cenário celestial defendido a ferro e fogo por Scruton, surgia Marcel Duchamp com o famoso mictório intitulado ‘Fonte’, de 1917. A partir daí as concepções de belo tomaram rumos distintos, enriquecendo o pensamento e as novas possibilidades de expressão. Reajustando a ideia de Scruton para as características pessoais me pergunto se ser feio, atualmente, é considerado pecado? Por muito tempo nos perguntamos o que seria a beleza e como se dariam as suas formas, para isso muitos pensadores se debruçaram nos estudos da área passando por Platão, Merleau-Ponty, Lipovetsky e muitos outros. Compreendo que a aparência artística é uma e a física/pessoal é outra, mas quem produz a arte e suas concepções de beleza?

A atitude de assinar um urinol e por em exposição foi um ato satírico, provocando a estética da beleza. ‘Fonte’, de Marcel Duchamp – Foto: Reprodução

Compreendo o belo como a exteriorização daquilo que é íntimo, como um processo de lapidação do outro e, simultaneamente, de si próprio. Na busca por conhecer alguém, me conheço. A beleza física não existe, o que é exposto fisicamente se limita a isso. Nada está verdadeiramente dado nesse fenômeno que se apresenta perante nossos olhos. Se não avançarmos para o passo dois, sendo o um o simples olhar, jamais conheceremos a beleza de alguém, a verdade velada de outrem. O que as redes sociais fazem é plasmar a representação daquilo que já nem somos mais. A partir do momento que publicamos uma imagem, já não pertencemos àquele estampado no feed dos nossos seguidores. A rasura da internet nos impossibilita metodicamente de mostrarmos a nossa fundura, nossas complexidades e formas de beleza. Ainda que mostremos nosso corpo, em toda sua nudez e lapidação das academias, jamais estaremos exibindo o que somos e o belo que possuímos. O fordismo da aparência não se interessa pelos detalhes que nos fazem humanos e realmente atraentes, o método é justamente fazer com que repliquemos imagens de sujeitos que se parecem conosco, apresentando nessa dinâmica novos esquemas de interesse pelo indivíduo. Temos nos relacionado com representações de pessoas e estamos nos habituando a gostar disso, mesmo que o efeito prático seja uma geração altamente narcísica e, por outro lado, com diferentes sofrimentos psíquicos. E aí, portanto, tento me responder a pergunta que propus sobre a feiura enquanto objeto pecaminoso: digo que a feiura existe, diferente da beleza, e ela está na ignorância, no egoísmo e nos jogos autocentrados que é compartilhado socialmente por sujeitos infelizes.

A inteligência, ou a busca por ela, no cenário das redes, é o detalhe que menos importa, algo totalmente negligenciado em detrimento de uma divinização do físico e seus aspectos padronizados virtualmente produzidos. Às vezes, mostrar o mínimo de erudição soa como pedantismo e arrogância. Para sermos aceitos temos que escrever e falar ‘pobrema’ e ‘framengo’, não se importar com vírgulas, acentos, e jogar pelo ralo nosso aprendizado básico do ensino fundamental e médio. Certa vez, numa conversa com um colega de Instagram ele me confessou que precisava alternar suas publicações entre posts engraçados e livros que lia para não ser chamado de pedante driblando, desse jeito, os censores do conhecimento ou os agentes do fordismo da aparência. Será que questionam a quantidade de autorretratos publicados diariamente? Acho pouco provável. Com isso não estou dizendo que devemos nos comportar como ”acadêmicos da ABNT” – Associação Brasileiras de Normas Técnicas, ao contrário, é deixar que a nossa mínima pessoalidade transpareça nesse mar de harmonizações desarmônicas e revitalizações labiais (sim, essa última expressão já está entre nós).

É claro que minha ideia sobre a apreensão da beleza está longe de ser alçada aos trends da vida social, e também não acho que ela um dia terá esse destaque; ela é contra hegemônica, imagino. Esse bolo de palavras e pensamentos ainda em marcha não significam uma assinatura de fracasso pessoal ou uma briga recalcada com o espelho, apesar de ter uma autopercepção distorcida – ou não tão distorcida assim. Também não quis afrontar os filhotes do engajamento: nós somos livres.

Minha visão para o futuro das redes sociais é bem pessimista, mas desde já quero acreditar e buscar a identidade das pessoas, o que elas oferecem depois de exibirem rostinho simétrico e ter a possibilidade de viver nos dois ambientes, humano e virtual, sem se contaminar com os perigos e dilemas de tais realidades. O fordismo da aparência tem nos transformado em números e em peças que devem se encaixar milimetricamente no tetris das relações interpessoais, não abrindo margem para trocas e encaixes diversos. Confesso que não transcendi integralmente no meu próprio entendimento daquilo que pode ser uma leitura da beleza e é óbvio que ainda me norteio pelo que vejo, mas o processo de renovação já começou a acontecer. A prova disso é que esquematizei um pouco essas questões, como vocês acabaram de ler.

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